quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Piriguete e o Cafuçú diliça

Trabalho numa micro-editora. No escritório somos oito, ao todo. E estamos sem office-boy, por isto é comum que, quando a secretária sai pra realizar alguma tarefa os outros se responsabilizem por atender a porta e o telefone.

Ontem foi uma situação destas. Ao abrir a porta, lá estava ela: Loira à força, de top bem colante e uma calça vestida à vácuo.
- Oi, eu vim pegar um documento pra Dra. Mariângela
- Você pode esperar um minuto que a responsável está acabando uma reunião e já vem falar contigo.
- Tá bom.
Vou até a copa fazer um café e quando volto, vejo a piriguete coçando desesperadamente o cofrinho.
- Ai, acho que algum bicho me mordeu.
Sorrio, o meu melhor sorriso “E eu com isso?”
Foi quando se deu o inusitado:
-Dá uma olhada pra mim..
Então, no meio da recepção de uma respeitada editora de música clássica, a piriguete se vira, aponta o traseiro na minha direção e abaixa despudoradamente o cós da calça, deixando quase á mostra o famigerado derrière.
- E aí, tem alguma coisa?
Bem, alguma coisa tinha, mas nada que se parecesse com uma picada de inseto.

Minha sorte é que fui recompensado da triste visão, com um mulato 1,85m, forte, aquela cara de homem que sabe o que faz e sorriso encantador. Técnico da manutenção de computadores. Ficou ao lado da baia onde trabalho quase duas horas. Eu suava, apesar do ar condicionado.

Em algum momento ao desligar o celular ele se vira para mim e diz:
- Ih.. eu hein! O cara me mandou beijo ao desligar. Sai fora – e sorriu
Eu sorri também e disse:
- Que isso... cada um se diverte como quer.

Hum... sabe que meu computador de casa não está funcionando muito bem?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Que Woody Allen é você?

É claro que os dois filmes mais recentes do celebrado cineasta tem, como não poderia deixar de ser, sua assinatura. No entanto, são dois filmes diametralmente opostos, quase um Yin-Yang, ou os dois pólos dialéticos da vida (será que o próximo filme é uma síntese?)

Em “Whatever Works” (Tudo pode dar certo) temos um cético e rabugento velho que não só casa com a jovem linda e loira como, quando esta o abandona, cai, literalmente, em cima do verdadeiro amor da sua vida. Esta, ao invés de lhe processar, enquanto ainda está toda alquebrada no hospital, lhe dá uma cantada. Há ainda personagens encontrando a verdadeira vocação artística e fazendo muito sucesso depois dos sessenta anos, outros, na mesma faixa etária, saindo do armário e logo arranjando um companheiro e uma festa de ano-novo que reúne os ex-casados com seus atuais cônjuges num clima de total harmonia, enfim, tudo pode dar certo.

O filme que está em cartaz, “You Will Meet a Tall Dark Stranger”, poderia ter sido traduzido como “Tem tudo pra dar errado”, ainda que o título no Brasil tenha ficado como “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Nele, uma série de situações mostram que a vida é um jogo de azar no qual, quase sempre, o cruel destino, no sentido bem grego do termo, nos vence. Paixões desfeitas, golpes de sortes que se desmancham no ar e coisas nobres e pelas quais vale a pena viver, como o amor, a família e os sonhos profissionais encarados como uma enorme ilusão. Não vou além para evitar spoler, ok? Já deu pra sentir o clima do filme, pessimismo sarcástico típico do diretor americano.

Enfim, qual dos Woody Allen, é você?

Eu? Acho até que tudo pode dar certo, eventualmente, mas o mais sensato é contar que, como diz a paráfrase de Skakespeare que abre o filme: “A vida é cheia de som e fúria, e, no final, isso não significa quase nada”.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Nouvelle Vague

Musiquinha que adoro e tem a cara de final de semana ao cair da tarde com amigos em casa e vinho branco gelado. (Pra espantar o clima ruim do post-bêbado anterior)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Merda acontece

Eu acabei de chegar de um show que eu deveria ter curtido.
Ela é uma cantora que eu vi, uma vez na Lapa e gostei.
Se você marca o seu primeiro quase-grande show às 22h, não pode não começar até 23h45.

Esta é uma merda, não a maior. Pela primeira vez, em muito tempo, não trabalho amanhã, e por isso fui ao show. Amigos me convidaram e meia hora antes desistiram, mas eu pensei: "Uhuu! Vamos ver o que há! Bora viver!".

E quando eu cheguei, encontrei o meu ex-alguma-coisa-por-quem-eu-achei-não-estar-mais-apaixonado beijando um cara, horrível, diga-se de passagem e que ficou me olhando(!) enquanto, bêbado, meu ex-alguma coisa-... foi ao banheiro.

E, agora, eu estou aqui, meio bêbado também, completamente insone e desejando, do mais fundo de mim que ele morra de câncer, lenta e dolorasamente, além de sozinho.

Desculpem, o texto não é bem-escrito, nem belo.

Merda acontece

Tomara que o mineirin (do post anterior) me ligue amanhã, só pra eu ouvir seu sotaque (só isso já me faria bem...)

De novo: Merda acontece.

Bom final-de-semana

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Soft Sex

L. me ligou empolgado:

- Fui convidado pra uma festa que nós temos que ir, agora que você está solteiro de novo.
- ... (Hã?)
- É assim, uma versão soft da festa do apê.

Nessa hora comecei a rir. A festa do apê é um bacanal no qual todo mundo fica nú obrigatoriamente. Começou no apartamento de um dos organizadores para pequenos grupos e hoje em dia é feita em saunas. Eu não sou santo, nem tenho muitos pudores no sexo, mas ficar pelado junto a um monte de gente desconhecida andando e se esbarrando pra lá e pra cá é uma das coisas menos eróticas que consigo imaginar.

- Vamos, vai. É soft porque na sala, quem quiser pode ficar vestido, só a partir do corredor é que a galera tira a roupa. É na casa de um cara que eu conheço, pouca gente e bebida boa.

Domingo ao cair da tarde lá fomos eu e L. para o apê em Botafogo: espaçoso, bem decorado, com uma iluminação indireta perfeita para um bacanal. O público convidado era bastante eclético: ursos, barbies, novos e coroas, comedores ativos compulsivos, passivos no cio máximo. Lá pelas 20h30 aparecia um ou outro peladão na sala, alguns com o pau em riste, felizes, suados, do banquinho do bar onde eu estava sentado, praticamente desde que cheguei, pensava como o sexo pode ser algo completamente broxante. Eu já fui a saunas, fiz ménages, e algumas coisitas em grupo, mas num clima bem diferente daquele ar de sofreguidão desesperada que agitava o lugar.

Sentou ao meu lado um cara que só não estava mais sem graça porque não saberia como. Marcos, se apresentou, estendendo a mão. Estava de férias e tinha vindo para “ver como era” disse ele. Mas não se animou. Mineiro, mas mora há tempos em Vitória. Ele tomando cerveja, eu absolut. Conversa vai, papo vem, aquele sotaque gostoso das gerais roçando no meu ouvido, minha língua roçando na dele. Olhamos em volta Os peladões agora já na sala e tudo acontecendo ali diante dos olhos, bastava estender a mão e entrar na dança. Ele me abraçou mais forte.
- Vamos embora?
Ele me beijou com vontade e fomos. Nem procurei meu amigo. Horas depois passando a mão pelo corpo trigueiro do mineirinho fiquei feliz. Sexo.

Há muitas boas possibilidades. Mas a gente pode escolher a melhor. Pelo menos pra mim, pelo menos naquela madrugada quente de Segunda-feira.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Imprensa: Acredite se quiser

Uma imprensa livre é, sem dúvida alguma, uma das prerrogativas irrenunciáveis da verdadeira democracia. A liberdade de investigação, de expressão e o direito à informação ajudam a sociedade a estar mais atenta ao que nela acontece, especialmente nos âmbitos mais impenetráveis dos jogos políticos e das grandes decisões econômicas, possibilitando o debate a respeito das questões que em última instância afetam a todos.

Em nome desta prerrogativa tem se construído e alimentado, no entanto, um mito vergonhoso, o de que a mídia é imparcial e expressa por si só a opinião pública brasileira, funcionando como a consciência ética nacional.
A imprensa não é observadora isenta das disputas pela hegemonia da verdade dos fatos na sociedade, mas ela mesma atua no sentido de fazer prevalecer sua interpretação, ela também tem uma posição específica e demarcada na luta por produzir o que é a verdade. E quanto a isto não há problema algum, desde que esta posição não fosse ocultada pelo recurso à imparcialidade, à uma objetividade inexistente, não há fatos, só interpretações.

Neste sentido, por exemplo, fiquei envergonhado em duas ocasiões recentemente. Na semana do segundo turno das eleições, a revista Veja, publicou uma “pesquisa fotográfica” com a qual queria evidenciar por uma série de paralelos fotográficos entre Fidel Castro e o Presidente Lula que este último copia o primeiro, deixando implícito que há um mesmo desejo de perpetuação no poder. Os paralelos fotográficos são forçadíssimos, para se ter idéia, um deles são os dois de óculos escuros e a legenda denunciando: “Fidel Castro põe um par de óculos escuros em 1999, dez anos depois, o presidente Lula faz o mesmo” (!). Num quadro à parte a reportagem fala que os grandes gestos ensaiados na política contemporânea começaram com Hitler e que este alcançou 90% de aprovação dos alemães no início. Ou seja: Cuidado com toda esta aprovação popular ao governo Lula que é a base para o sucesso da então candidata Dilma. Isto sem falar na capa da edição que trazia a pergunta: “Ele sairá da presidência, mas a presidência sairá dele?”. Seria bem mais honesto por parte da referida publicação fazer como a revista Carta Capital que, logo no início da campanha, declarara seu apoio à Dilma explicando suas razões para tal.

O outro episódio no qual fiquei escandalizado com a reação da imprensa foi a recente operação das forças policial e militar no Complexo do Alemão. A imprensa tratou a questão como se fosse a batalha apocalíptica final, saudando uma re-fundação da cidade do Rio, com fotos breguíssimas de moradores fazendo o símbolo do coração com as mãos e como se, naquele dia, todos os problemas de violência na cidade estivessem resolvidos.

É sem dúvida nenhuma uma vitória importantíssima o que aconteceu, mas a questão é que as comunidades ocupadas pelo poder público representam 3% de todas as 1.000 comunidades existentes no Estado do Rio de Janeiro. 47% destas são dominadas pelas milícias num esquema onde é muito mais difícil separar “mocinhos de bandidos” como se fez no Complexo do Alemão, porque as milícias são formadas pela banda podre da própria polícia.

O combate a violência no Rio passa pela reestruturação da forças policiais, com punição dos corruptos e valorização, inclusive dos salários, dos policiais, pelo combate ao contrabando de armas e drogas e pela constatação de que o traficante do morro é o elo mais baixo da cadeia da droga. As mansões do tráfico, com certeza, não são as mostradas no Alemão com piscina e hidromassagem,as que mais importam se encontram em áreas bem mais nobres da cidade do Rio e do Brasil.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O poder de si

Todos nós temos de lidar com inúmeros desafios ao longo da vida. A cada dia, um leão pra abater. Provar seu valor no trabalho, construir uma rica vida afetiva, encontrar a realização pretendida na complexa dinâmica dos relacionamentos. Construir, aparar, cortar, tentar, de novo e de novo. Desistir ou insistir.

Há tanto a ser feito, em tantas áreas que podemos passar a vida distraidamente tentando atender as demandas de cada uma delas, resolvendo o urgente, que nem sempre é sinônimo do fundamental. No entanto, para além desta intrincada rede de obrigações que constitui os múltiplos focos que exigem nossa atenção e energia vital, há um mais primário, o mais básico sobre o qual se erguem todos os outros: o cuidado de si.

O “si”, “self”, “eu”, “essência”, ou qualquer nome que se dê, talvez seja mesmo, como apontam os pós-modernos, uma invenção ocidental. De qualquer modo, se o inventamos é porque temos em nós uma exigência de unidade, de não-dispersão absoluta, de ir às coisas, mas voltar delas para algo que seja nós mesmos, de não nos identificarmos com a nossa mera práxis, como se tudo o que fôssemos se reduzisse ao que fizemos, o quanto realizamos ou deixamos de fazer.

Eu tenho pensado sobre este poder de si, de decisão sobre a vida, de construir uma existência que seja bela, boa, na qual você possa se reconhecer apesar de tudo. Isto se chama espiritualidade, esta compreensão geral, numa única tomada sobre a vida. Não é religião, credo, doutrina ou outra coisa, mas espiritualidade.

O quanto se tem poder sobre a vida? Qual o peso da nossa vontade e do imponderável, daquilo não-escolhido na existência?

Que, para além do pensar, “aconteça”, como pressinto. Não num milagre, iluminação ou coisa sobre-humana, mas no mais simples, real e cotidiano da minha humanidade.