sábado, 4 de dezembro de 2010

O poder de si

Todos nós temos de lidar com inúmeros desafios ao longo da vida. A cada dia, um leão pra abater. Provar seu valor no trabalho, construir uma rica vida afetiva, encontrar a realização pretendida na complexa dinâmica dos relacionamentos. Construir, aparar, cortar, tentar, de novo e de novo. Desistir ou insistir.

Há tanto a ser feito, em tantas áreas que podemos passar a vida distraidamente tentando atender as demandas de cada uma delas, resolvendo o urgente, que nem sempre é sinônimo do fundamental. No entanto, para além desta intrincada rede de obrigações que constitui os múltiplos focos que exigem nossa atenção e energia vital, há um mais primário, o mais básico sobre o qual se erguem todos os outros: o cuidado de si.

O “si”, “self”, “eu”, “essência”, ou qualquer nome que se dê, talvez seja mesmo, como apontam os pós-modernos, uma invenção ocidental. De qualquer modo, se o inventamos é porque temos em nós uma exigência de unidade, de não-dispersão absoluta, de ir às coisas, mas voltar delas para algo que seja nós mesmos, de não nos identificarmos com a nossa mera práxis, como se tudo o que fôssemos se reduzisse ao que fizemos, o quanto realizamos ou deixamos de fazer.

Eu tenho pensado sobre este poder de si, de decisão sobre a vida, de construir uma existência que seja bela, boa, na qual você possa se reconhecer apesar de tudo. Isto se chama espiritualidade, esta compreensão geral, numa única tomada sobre a vida. Não é religião, credo, doutrina ou outra coisa, mas espiritualidade.

O quanto se tem poder sobre a vida? Qual o peso da nossa vontade e do imponderável, daquilo não-escolhido na existência?

Que, para além do pensar, “aconteça”, como pressinto. Não num milagre, iluminação ou coisa sobre-humana, mas no mais simples, real e cotidiano da minha humanidade.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Musiquinha de segunda

Então queridos, vamos usar a velha e combalida tática de preencher de música o espaço vazio do blog.

Com vocês, Soko

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Bom apetite!

Escritório fechado por causa da guerra civil que acontece no Rio desde Domingo e as condições afetivas nubladas deste blogueiro que vos escreve, ora raios límpidos de sol, ora prenúncios de chuvinha fina e irritante, clamavam por uma atitude.

Por isto fiz uma paella express que, se não enche de orgulho os antepassados espanhóis, tambén não cobre Barcelona de vergonha. Antes, durante e agora, depois do almoço, um bom vinho branco chileno e só pra variar o clima hispânico: jazz.
Agora só falta o bom café: forte e sem açúcar.

A música está aí embaixo. O resto é com vocês.
Ótimo finde!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ainda afeto

O problema do afeto é puramente etimológico. Aquele com quem você flerta, deixa no ar e não passa disto, não te afeta. O teu fucky buddy, não te afeta. Os caras que surgem na alta noite e desaparecem à luz da manhã, tampouco. Os que te desestruturam, te fazem suspirar à toa e deixam linda qualquer coisa antes sem sentido: afeto. Esta é a questão.

Depois da minha conversa com Alê, achei mesmo que tinha resolvido tudo, que estava ótimo, despi a camiseta enrolado-comprometido e voltei à antiga “Uhuu! Solteiro no Rio!”, isto até receber um torpedo dele no dia seguinte, perguntando como eu estava e pedindo perdão pelo sumiço dele no final-de-semana.

Respondi que estava ótimo, que não tinha nada para ser desculpado e que era bom que tivéssemos conversado. E, desde então, não paro mais de pensar nele.

O fato é que só dá pra eu continuar esta história minimamente preparado para não estar tão próximo, tão presente, como eu gostaria. E se for assim, vale a pena?
Estar com ele sem pensar no futuro. Sem me fechar a outras possibilidades (afinal estou solteiro), sem enquadrar esta relação em moldes conhecidos.
A questão é saber o que se quer. E até onde se está disposto a ir.

O problema do afeto é que ele te afeta.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O que deve ser dito

Até onde se estende o afeto? Em dois meses aprendi muito sobre os limites do meu. Sempre fora explosivo, fogos de artifício, tão lindo e mobilizador quanto muito breve.

Em dois meses, descobri a alegria e o suportar estar junto. Um problema nos lábios dele me roubou seu beijo nos últimos quinze dias e com ele seu desejo. O meu estava aqui se agüentando firme, o que ardia não era a falta de seu corpo no meu, mas a dúvida. Ele quer passar mais tempo comigo, como eu quero com ele? O que afinal nós temos? O que não é uma mera questão de classificações, mas equivale a pensar sobre o quanto você se entrega.

A duras penas entendi que o máximo que se pode fazer é entender o que eu sinto, o que eu quero com ele e lhe dizer. Imaginar o mundo que é o outro é desbravar profundezas abissais, chegando a lugar algum e ser tragado de dúvida em dúvida, num mar infindo de suposições. O que se tem a fazer: Eu sinto assim. E esperar que como espada afiada, isto rompa a capa de mistério que envolve o outro.

No Sábado, pela primeira vez, desde o início não nos vimos, não nos falamos: torpedos. A minha medrosa afetividade teria se conformado assim. Mas algo em mim, e fora de mim em amigas queridas, disse: Há coisas que precisam ser ditas. Não se pode viver uma história e deixá-la suspensa em mensagens ambíguas, em projeções do que se acha que o outro quer dizer.

Domingo, se disse o que era necessário. Ele me quer na inexatidão do que temos. Eu o quero mais, e por isto, não sei se posso me contentar. Senti-me orgulhoso e quase triste. Pela dignidade e transparência com que tudo se deu e pela ausência que em algum pensamento furtivo me assalta: numa música, numa risada, em algum momento tolo vivido de maneira absurdamente gratificante com ele.

Continuar? Sinceramente não sei, o que me embalava ultimamente era o desejo de uma presença que eu pensava me querer em constância, o ocasional, talvez, e se frise bem este advérbio, não me baste.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O viado e o pastor

Nós já havíamos tido uma discussão. Foi sobre a questão da PLC 122, que criminaliza a homofobia. Ele argumentou que era uma “conspiração” gay, um atentado contra a liberdade de expressão... me deu vontade de rir, ah se nós gays tivéssemos este nível de organização e esta união! Depois da discussão que acabou tomando boa parte da aula, um colega me segredou: “Liga não, ele é pastor batista”.

O fato é que ontem eu apresentei numa aula de Antropologia um trabalho de campo sobre a experiência de se descobrir gay na Igreja católica. Como se dá a articulação da identidade religiosa e orientação homossexual neste primeiro momento e como se pode ressignificar a pertença ao catolicismo a partir do momento em que se “sai do armário”. Como amostragem entrevistei alguns membros do grupo Diversidade Católica que se destina justamente a este público.

E não é que o pastor prestou uma atenção incrível à minha apresentação! E não senti da parte dele uma postura intransigente, condenatória, mas um real interesse. Tanto foi assim que ele estava responsável por controlar o tempo de cada seminário e se esqueceu completamente de fazer isto no meu.

Num período de tantas notícias ruins para nós gays, atentados absurdos no Rio e em São Paulo, numa sala de aula de uma universidade carioca, dois mundos, a princípio hostis se encontraram e com honestidade, dirigiram um olhar aberto e interessado um ao outro

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O perigo de Novembro

Eu não sei mais escrever. É por isto que o blog está parado. Se ele agnoniza? Acho que não, nem eu tampouco. A agonia é aguda. E esses dias tem sido todos graves. Solo de violoncelo. De trabalhos acadêmicos, gasturas afetivas. Continuar ou não? Continuar o que? Há tanto para isto?

Toda manhã então, junto ao café que passando, espalha seu odor pelo dia, eu tento me convencer: terminar o período na faculdade, fazer alguma porra de exercício porque se é um corpo e não mandar ir à merda o lindão faz sentido, deve fazer algum.
Há momentos assim: caminha-se pela beirada, tudo morno e cinza num céu sem trovoadas ou sol, algo agosto da vida em pleno novembro do calendário. E não é dor, nem tristeza, É só o que tem que se fazer para evitar o... que?

Nessas, e em todas as outras horas, a salvação é sempre música. E para mim, muitas vezes ela: Nina.
Então, com vocês: To love Somebody