Borboleta andou batendo suas asas multicloriodas e apressadas por estas terras. Mas foi um pouso tão rápido que mal deu tempo de jorrar sobre ela a imensa vasão das minhas palavras. Conversa de amigos, pra mim, dura horas, tulipas e tulipas de chope. Mas ainda não foi desta vez.
Em tão breve estadia, onde levá-la? Sugeri o local onde o Rio, é mais ele mesmo, onde eu sou mais carioca, aquele que em poucas quadras reúne, na sexta à noite, gentes tão diversas, tribos distintas que vão de patricinhas a undergrounds, a Lapa.
Todo mundo tem espaço, quer nos reformados casarões que apresentam noites de samba a ingressos cada vez mais caros ou no meio da rua, comprando a cerveja de ambulantes enquanto se observa o vai-e-vém interminável da multidão. A Lapa é atração para todos os bolsos.
Gosto de saltar do ônibus logo depois da Igreja de Nss. da Conceição e admirar de longe o imponente e triste aqueduto, o maior símbolo do bairro. Ultimamente o estão pintando, tanto melhor. Mas o entorno, em meio à uma fachada ou outra bem cuidada, ainda exibe um ar desleixado e melancólico, de tempos idos que deixaram marcas, como se rugas, cicatrizes de épocas distantes, fossem inevitáveis também no casario antigo das cidades.
Devo confessar, de uma forma esquisita, que esta decadência que é tão visível em certos pontos, com suas travestis mal disfarçadas de mulher em frente a hotéis baratos, não me desagrada. A mistura com o fervilhante novo que surge, sempre mais um bar, restaurante, ou casa de samba, as gentes tão diferentes que pelas ruas circulam sem pressa, esta celebração ao fim de semana nas risadas que ecoam pelos tijolos dos antigos casarões, nos copos de cerveja e olhares de paquera, são a própria expressão da boêmia carioca que também é, ao mesmo tempo, uma tradição e uma novidade no bairro.
A Lapa foi o lugar dos míticos malandros cariocas, de incontáveis cabarés, da loucura fascinante e homicida de uma Madame Satã até os anos 40. E quando tudo isto parecia morto, eis que a vida na Lapa ressurge, lentamente, a partir de meados dos anos 90. Por ação da iniciativa privada, sem qualquer incentivo do poder público. As primeiras intervenções do governo municipal se fizeram a pouquíssimo tempo, fechando, por exemplo, o tráfego de veículos nas noites de sexta e sábado, o que consagrou a rua definitivamente como passarela.
Quase como uma fênix carioquíssima, o bairro rasgou seu atestado de óbito e tá por aí, esbanjando malandragem, suor e cerveja nas lindas noites do Rio.
.