segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Móbile

As perspectivas para o fim de semana eram as mais modestas possíveis. Muita coisa para ler e a situação bancária típica dos últimos dias do mês. Mas se, a princípio, isto soa desanimador, era sentido por mim como algo pouco abaixo do paraíso. Tudo o que eu queria, depois de uma semana corrida, na qual nem na faculdade consegui ir era ficar entre o sofá e a cama, entre os livros e as minhas séries de tv (“Mad Men” cada vez melhor!).

Li muita coisa na sexta e sábado durante quase o dia inteiro. Até um momento em que as palavras giram na sua cabeça, e o silêncio do apartamento em volta começa a pesar toneladas, vai se adensando ao ponto de se tornar próximo o momento no qual, por condições anormais de pressão, você será esmagado. O milagre salvador numa hora destas é sempre a aparição de um rosto humano amado. No sábado foram dois: Jú e Cris. Dando voltas pela redondeza se lembraram de passar lá em casa para um café. Numa intimidade típica de amigos.

Cris é das minhas, examinou os livros da estante. Tocou-os. Eu também preciso senti-los. Tê-los entre as mãos, porque, como diz Caetano, livros são objetos transcendentes, mas que podem ser amados com amor tátil. Jú continua desejando o melhor pra mim, o que na cabeça e coração de uma romântica que encontrou de forma incrível a mulher amada só pode ser: o amor da vida. Desta vez, porém eu refutei religiosamente seus argumentos contra minha insistida, ainda que não pretendida em absoluto, solteirice. Disse-lhe que, talvez, Deus tenha me escolhido para levar alegria a muitos homens. E eu mesmo me convenci de minha vocação.

Depois do café continuei, só, minha jornada intelectual/ televisiva até que lá pelas 22h30 ou eu saía de casa ou endoidecia. Fui à Lapa. Num barzinho novo, meia-boca toda vida: no primeiro andar música nas alturas ao vivo, MPB pra lésbicas, no segundo uma pista de dança muito suspeita. Mas a noite foi ótima. No meio da multidão que enchia o bar, entre uma música e outra da Ana Carolina (argh...argh...) olho pra trás e encontro me olhando um cara: grande, na idade que gosto (quarentão) e com uma cara de safado que causou-me arrepios. Fui lá: beijo incrível e papo.. tão bom quanto! Vocês imaginem o que é encontrar um cara que ao falar sobre música boa cita o nome de vários álbuns de Nina Simone! Justo para mim! Se eu ainda fosse um romântico incurável ou um religioso fiel encararia definitivamente como um sinal. Ficamos beijando e batendo papo até de manhã. Telefones trocados. Nem fiz mais o meu discursinho piegas de “se você me der seu número, eu vou realmente te ligar blá..blá..blá..” Um regalo pra alma e pros lábios só durante a noite de sábado? Ótimo, alguém lá em cima viu como eu andava precisando aquele dia.

E ainda teve o Domingo! Cafajestaço ligando pra amiga e eu a orientando, por meio de mil torpedos, a esnobá-lo. Outro café surpresa com mais gente boa e, não mais que de repente, uma viagem do nada para Buenos Aires. Dia 7! Sabem há quanto tempo não tiro férias e viajo mais que 3 dias? E agora Argentina: Boa, bonita e barata, com amigos queridos. Coro por favor: Ele merece! Ele merece!...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Paradoxos ou Sobre a Importância de não foder no primeiro encontro

Hoje eu vi um cara loiro no metrô. E eu não gosto de loiros. Mas era uma espécie de loiro com um charme cafuçu. Parecia um agricultor, rústico, como se nem tivesse lavado as mãos ao acabar de arar a terra e entrasse no metrô. Mas uma terra da Eslováquia, porque ele era loiro. A vida está cheia de paradoxos.

Esta visão do agricultor loiro cafuçú da Eslováquia me fez lembrar uma coisa. Você aprende com muita dificuldade as regras básicas da existência. Aquelas que vão te oferecer uma margem considerável de segurança, o passaporte pra você caminhar por aí sem se oferecer todo, por intero, em cada esquina, num espetáculo grosseiro: civilidade , eis o nome para “conter-se”.

Quem transa no primeiro encontro não respeita isto. Não sabe que a gente deve se despir lentamente numa conversa, em sinais delicados: olhares, piscadelas, sorrisos tímidos. Resguardar-se em ânsias crescentes de um sempre mais, de chegar um pouco mais além do que se foi até então. Mil e uma noites.

Quem fode no primeiro encontro desespera as boas intenções do mundo gay. Aquele que entende de moda e decoração, é bem-sucedido, organiza sua casa segundo o Feng-shui e “não sou, nem curto efeminado”.

Fazer sexo no primeiro encontro é não perceber a importância do contexto, da pessoa legal e bem-intencionada que ele é, significa sobrevalorizar paus rijos, suores e bocas que querem se perder sempre no momento em que uma língua toca a outra, passa pelos lábios e lhes morde o canto esquerdo.

Foder no primeiro encontro é ser exigente demais ainda que muito, extremamente, imoralmente fácil.

Meus amigos: Eu trepo quando eu quero. Inclusive no primeiro encontro.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cotidianamente...

Muita correria em Agosto. Manhãs, tardes e noites ocupadas de um jeito absurdo com trabalho. E também os fins de semana. Nestes, fora um curso esquizóide de “Sociologia da Mentira” nas manhãs de Sábado, o resto todo é muita cerveja ou pinga e amigos, muitos amigos para o café da manhã, almoço ou jantar. Porque quanto mais cansado, menos em casa eu fico quando tenho tempo.

Conclusões até aqui:
N. 1.O mundo administrativo não é o bicho de sete cabeças que parecia no início.
N. 2. Não adianta ganhar a mais por um serviço extra se o estresse acumulado nele te leva a sair (e gastar) mais.

Enquanto no mundo-fora o triatlon que tem sido Agosto me deixa esbaforido (adoro esta palavra!) no aqui-dentro vai tudo bem. Uma alegria e disposição, aquela satisfação com quem se é ou com o como se está, sem muita pressa, ou cobrança. Vamos morrer obra imperfeita, desapareceremos no hiato entre o real e o pretendido, o desejado e o alcançável, por isto, um bom lema é:”Tortura: Nunca Mais”.

É tão sério isto que beijo longamente, abraço-o como se o pudesse proteger de tudo, queimo-me, consumindo-me em seu fogo sem amanhã, nem perguntas, tenho deixado os rótulos para as embalagens de maionese que nunca compro. O que é? O que será?É bom o suficiente? São perguntas... inexistentes.

Um Setembro mais frequente virá, aqui e nos blogs amados, já-já Agosto termina.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Onde o Rio é mais carioca

Borboleta andou batendo suas asas multicloriodas e apressadas por estas terras. Mas foi um pouso tão rápido que mal deu tempo de jorrar sobre ela a imensa vasão das minhas palavras. Conversa de amigos, pra mim, dura horas, tulipas e tulipas de chope. Mas ainda não foi desta vez.

Em tão breve estadia, onde levá-la? Sugeri o local onde o Rio, é mais ele mesmo, onde eu sou mais carioca, aquele que em poucas quadras reúne, na sexta à noite, gentes tão diversas, tribos distintas que vão de patricinhas a undergrounds, a Lapa.

Todo mundo tem espaço, quer nos reformados casarões que apresentam noites de samba a ingressos cada vez mais caros ou no meio da rua, comprando a cerveja de ambulantes enquanto se observa o vai-e-vém interminável da multidão. A Lapa é atração para todos os bolsos.

Gosto de saltar do ônibus logo depois da Igreja de Nss. da Conceição e admirar de longe o imponente e triste aqueduto, o maior símbolo do bairro. Ultimamente o estão pintando, tanto melhor. Mas o entorno, em meio à uma fachada ou outra bem cuidada, ainda exibe um ar desleixado e melancólico, de tempos idos que deixaram marcas, como se rugas, cicatrizes de épocas distantes, fossem inevitáveis também no casario antigo das cidades.

Devo confessar, de uma forma esquisita, que esta decadência que é tão visível em certos pontos, com suas travestis mal disfarçadas de mulher em frente a hotéis baratos, não me desagrada. A mistura com o fervilhante novo que surge, sempre mais um bar, restaurante, ou casa de samba, as gentes tão diferentes que pelas ruas circulam sem pressa, esta celebração ao fim de semana nas risadas que ecoam pelos tijolos dos antigos casarões, nos copos de cerveja e olhares de paquera, são a própria expressão da boêmia carioca que também é, ao mesmo tempo, uma tradição e uma novidade no bairro.

A Lapa foi o lugar dos míticos malandros cariocas, de incontáveis cabarés, da loucura fascinante e homicida de uma Madame Satã até os anos 40. E quando tudo isto parecia morto, eis que a vida na Lapa ressurge, lentamente, a partir de meados dos anos 90. Por ação da iniciativa privada, sem qualquer incentivo do poder público. As primeiras intervenções do governo municipal se fizeram a pouquíssimo tempo, fechando, por exemplo, o tráfego de veículos nas noites de sexta e sábado, o que consagrou a rua definitivamente como passarela.

Quase como uma fênix carioquíssima, o bairro rasgou seu atestado de óbito e tá por aí, esbanjando malandragem, suor e cerveja nas lindas noites do Rio.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Rapidinhas

É mentira esta história de que uma amizade com o ex é absolutamente como as outras. Fui brincar com ele:
“-Nunca mais te perdoarei na vida porque vc não me apresentou Nina Simone! Que voz é aquela? Caraca.. maravilhoso é pouco!”

Ele: “Você não me deu tempo...” Com um jeito de quem não estava brincando.

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Por falar nisso, eu já postei uma canção dela aqui. Mas, então, estava apenas descobrindo, iniciando minha paixão. Hoje, ando completamente vidrado em Nina Simone.
Não entendo nada de técnica, mas ela tem uma voz absolutamente original, um timbre único que parece que nasce não sei de que entranhas, lá das profundezas. Impactante e sublime.
Nina passeou por várias gêneros musicais e além de intérprete poderosa foi exímia pianista e compositora. Lutou pelos direitos dos negros nos E.U.A, e chegou a cantar no velório de Marther Luther King.
Poderia colocar mil músicas que adoro, mas eis 2 de estilos bastante diferentes. I Put a spell on you, bem jazz e uma das primeiras gravadas por ela e Here comes the sun, dos Beatles numa versão bastante diferente da original.

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Eu definitvamente tô achando um saco a noite gay do Rio. Parece que muda o cenário, mas as figuras, atitudes e tudo o mais é o mesmo. Ainda bem que há uma profusão de festas moderninhas rolando: gente bonita, descolada, som fora do óbvio. Amanhã tem Gambiarra no MAM!

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Preciso parar de tomar meu delicioso café pós-almoço no “Armazém do café”. Já gasto quase o dobro do que ganho para almoçar só com a comida. Mais o cafezinho, um dos mais caros (e saborosos) do Rio, não dá.

Pobreza é foda!

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Nota de esclarecimento sobre o último post: Minha relação de amizade com mulheres passa longe daquele tipo de relação celebrada ultimamnete entre gays e as representantes do sexo feminino. Não sou fashion, não entendo nada de decoração, nasci viado sem estes ítens de fábrica. Ah, mas sobre homens, a gente fala, sim. (rs). Bj

Ótimo finde!



terça-feira, 10 de agosto de 2010

As meninas

A parte mais significativa das minhas amizades é de mulheres. Hoje me dei conta disto, porque, as três figuras femininas que povoam largamente meu afeto se manifestaram.

Helô é a mais antiga. Aquela amizade que recebe o título, a honra e os louvores todos porque é, sem dúvida, a realização nobre do que este substantivo significa. O uso vulgar de “amizade” encobre uma multidão de relações em diferentes graus de afeto e intimidade: conhecidos, colegas, gente que já foi e não é mais, todos sob o guarda-chuva amplo e pouco real do nome “amigos”. Helô é provada no fogo do tempo, dos anos. Uma amizade perpassada por lágrimas e risos, em intimidades cotidianas e certas distâncias que não abalaram nunca o bem-querer mútuo. Foi ela quem me acompanhou na transformação mais radical da minha vida, na qual eu tinha medo de me perder e mesmo aí sempre a encontrei: pronta, solícita, de braços abertos. Hoje, ela me deu uma cachaça com gosto de “Amo você”.

Bia eu conheço a pouco tempo. Mas isto não quer dizer nada. Ou quer, a intensidade da nossa identificação desde o início, contada aqui, era sinal de que ela entrava na minha vida de um modo totalmente original. Bia tem o sorriso mais incrível que já vi: o mais franco, o mais largo, o mais querido. Bia é livre e isto com uma força que vibra tudo à sua volta e ecoa lá dentro, onde ainda estão meus grilhões. Sinto-me tão à vontade com ela que posso falar de coisas solenes e graves sobre a vida ou rir e beber despreocupadamente com a mesma satisfação. Bia está sumida: trabalho, mas me mandou um torpedo e deixou um comentário no último post que se fez sol em mim em plena noite de terça.

Borboleta eu conheço virtualmente, isto até a próxima sexta. Mas desde a primeira vez que li um post seu, entendi: estava eu, o que me falta e é meu anseio, o que não compreendo porque me ultrapassa, tudo ali. E nos sucessivos posts desde então, adivinho uma espécie de revelação, de vida, mal suas palavras começam a ecoar em mim. Escrevi-lhe uma carta. Isto mesmo, não torpedo, email, conversa no msn. Uma carta: papel, esferográfica, envelope e cep. Mas ela se perdeu ao que parece. Agora, estou eu mesmo aí, perdido, em algum lugar do território nacional, tudo o que sou, e todo o afeto que dedico ao que amo. Apesar de trágico (?), isto tem me encantado de alguma forma engraçada. Borboleta me disse, hoje, que a carta não chegou.

Será a amizade, feminina?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

De tudo o que eu não sei

Eu não sei se haverá alguém com braços realmente abertos, palavras que se encontrem com as minhas e um olhar que me instigue, o suficiente.

Não sei quando, como, nem onde.

Não sei o que é a vida, qual seu sentido, e mesmo se há algum.
Não sei se atingirei meus objetivos, quer pessoais quer profissionais.
O todo que eu não sei se constitui em algo tão vasto que me mostra, por contraste, o ínfimo do que, de fato, conheço.

Sei que o dia amanheceu num azul incrível hoje e que o sol desafiando os renitentes pingos da ainda chuva da noite, triunfou, robusto, sobre eles.
Sei que a amizade é sagrada e deve ser cultuada com todos os incensos possíveis em qualquer altar da vida.

Sei que a gente não deve esperar por ninguém e nem, desesperar por nada. A não ser aquele justo desespero quando a nossa envergadura humana, forte mas limítrofe à nossa condição de criatura, se rende ao peso do inevitável.
Sei que o beijo é bom, que o dia é único e que chegar em casa e ter um honesto cálice de vinho para tomar, enquanto se pensa com carinho em alguém, é a recompensa da dura jornada.

O todo que eu não sei é o espaço, o vão, a altura, a abrangência e profundidade sobre o qual se lança o meu desejo. É a garantia de que não estou morto, nem frio e nada do que importa está distante. De tudo o que eu não sei me resta a mesma certeza de Santo Inácio de Loyola:

"Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente".

Boa Sexta-feira!

P.S.: “honesto cálice de vinho” é do querido Rodrigo do Lambe-Lambe.