sábado, 10 de julho de 2010

Post excessivamente teórico de auto-ajuda chinfrim numa tarde morna de sábado

Sem dúvida alguma as grandes crises não se dão por causa da desvalorização da bolsa, do déficit na balança comercial ou das onipotentes ameaças ecológicas. Não se deflagram quando países como o Irã ou a Coréia do Norte tem o know-how pra a bomba atômica, ou se você, blogueiro querido e maludo, não ganhou o concurso que a Vaca Jersey bolou só para renovar o estoque de fotos de machos de cueca a serem postadas em breve no Pelo Tesão do Boi Zebu.

A maior crise planetária se dá no campo das relações. Temos inteligência, vontade, dizem que, somos seres sociáveis, logo, deveria ser natural, fácil, quase indolor pôr-se em relação, seja familiar, de amizade, ou algo que eu chamaria de “romântica”. Mas não é. E eu descobri uma coisa importante a respeito do porquê disto.

Não é a solução para este problema ancestral e onipresente. Se fosse, ao invés de divulgá-la de graça aqui no blog, escreveria um livro e chamaria a Ana Maria Braga e o Cid Moreira para um áudio-book. Mas, de qualquer modo, talvez seja uma importante percepção a respeito de mim.

É preciso estar centrado. Tranqüilo, minimamente satisfeito consigo próprio e ir às pessoas como quem se dirige a um passeio turístico, sabendo que por mais que você vislumbre minimamente o que vai encontrar, esta expectativa não condiz, muitas e muitas vezes, com a realidade, para o bem e para o mal.

Sei que é o óbvio lulante, escrito num livro não venderia nada (hum... se bem que “O Segredo” vendeu horrores e Paulo Coelho é um Best-seller), mas quando de alguma maneira isto passa do plano das idéias para a vida prática o que ocorre é uma sensação de confiança e empoderamento bem interessantes.

Os episódios reais que motivaram este post excessivamente teórico de auto-ajuda chinfrim numa tarde morna de sábado ainda se desenrolam, por isto, antes de me referir factualmente a eles, aguardo seu grand finale ou ao menos, as cenas dos próximos capítulos.

P.S. De volta, galera! Pra falar a verdade, nem sei o porquê do sumiço. Foi a semana mais tranqüila do ano. Além da única obrigação de dar as últimas aulas dos cursos no semestre, o que fiz foi dormir horrores. Por volta de umas onze, doze horas, coisa que não fazia a séculos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Pecado da carne

Durkheim, um dos sociólogos mais importantes da França, classificava a religião como um fato social total. Isto porque, classicamente, a religião não diz respeito apenas à uma dimensão da vida do indivíduo, mas é algo que o influencia em todas as áreas: na vida familiar, em sua visão política, em seus juízos morais sobre o mundo.

Hoje em dia, isto é bem discutível. Pode-se aderir parcialmente a um credo, ou mesmo, elaborar a sua própria espiritualidade, juntando elementos de religiões distintas. Mas não nos enganemos. Há redutos onde a religião é ainda a força que determina tudo na vida.

Aaron Fleishman herdou o açougue Kosher após o falecimento de seu pai. Kosher é o tipo de comida certificada como pura pelos rabinos para a alimentação dos judeus ortodoxos. Ele contrata como funcionário, Ezri, que chega em Jerusalém com a intenção de estudar numa escola de Rabinos.

O Pecado da carne, título original “Einaym Pkuhot” (alguém sabe hebraico, aí?) é um filme sobre o desejo. Mas um desejo escuro, sombrio, que se esconde sobre as pesadas roupas pretas, as longas barbas, os aparatos religiosos dos judeus ortodoxos. Uma paixão vivida como tormenta, que se espalha no corpo acelerando os batimentos cardíacos, formigando as mãos, provocando movimentos que são entendidos como os sintomas de um mal a ser combatido, recusado, vencido pela fé. O tesão como tentação, a capacidade de resistir vista não como covardia, mas amor a Deus. Quando uma parte de você clama e este grito ameaça estilhaçar tudo o que você tem, ruir as estruturas todas do mundo e te precipitar no nada, no vazio total onde só há o desejo: forte, desconhecido, imperioso, é preciso, desesperadamente sufocar este grito, calar sua voz.

Lembrei-me de outro filme judeu sobre o tema, o fofíssimo “The Buble”. Ainda que o final seja triste, a história consegue ser leve, colorida. Há espaço, vãos pelos quais o amor entre os personagens respira, cresce, se satisfaz. Tel-Aviv, a capital de Israel, tão mais moderna e ocidental que Meah Shearim, o bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém. Em Meah Shearim o amor se confina a cubículos escuros, bagunçados e ao menor sinal de visibilidade, foge pelas ruas estreitas, cercadas por amplas muralhas de pedras.

O filme repercutiu em mim porque fiquei pensando na minha própria história, os conflitos todos entre minha sexualidade e a religião, e porque num vislumbre, entendi que é a realidade de milhares de pessoas neste momento. Não só lá em Israel mais aqui. Católicos, protestantes, e sabe-se lá em que outras religiões. O Amor, ainda mais o maior deles, o de Deus, não deveria ser uma libertação?

Deixo uma música que diz, como só Chico pode fazer, esta realidade toda aqui escrita, de forma belíssima: “Será que o deus que criou nosso desejo é tão cruel, mostra os vales onde corre o leite, o mel e estes vales são... de deus”.

sábado, 3 de julho de 2010

Say NO To homofoby

Muito dos avanços que o segmento LGBT vem alcançando em termos de aceitação social se deve à maior visibilidade que sujeitos gays e lésbicas tem em muitas áreas da sociedade. De certa forma conquistamos boa parte da chamada “opinião pública” para nossa causa.

Olhando outros movimentos em prol do reconhecimento da dignidade humana podemos ter uma idéia de até onde é possível chegar. Das quartas=de-final até o último e decisivo jogo da copa, há um momento de campanha contra o racismo. Uma faixa é estendida e os capitães dos times lêem uma espécie de convocação incitando os torcedores a lutar contra a discriminação racial.

As piadas nas quais se ria dos negros desapareceram dos meios de comunicação e por mais que haja ainda muito preconceito contra negros, não é politicamente correto expressá-lo. Vai se construindo uma moralidade que reprime quem discrimina e por mais que cada um possa pensar o que quiser no âmbito privado o que interessa é que isto não se manifeste na dimensão pública. Há um cerceamento positivo de certa liberdade de expressão para proteger aqueles que são alvo histórico de atitudes racistas.

Uma das críticas levantadas contra o PLC 122 que criminaliza a homofobia é justamente que este cercearia a liberdade de expressão ao tornar passível de processo judicial quem exteriorize posturas discriminatórias em relação aos sujeitos LGBT. Troque “gay” no texto por “negro” ou “judeu” e todos o considerarão justo. A questão é que nós, os gays, ainda somos alvo explícito de discriminação, não só velada e individual, mas pública e ostensiva; não só na opinião privada mas nas instâncias legais do Estado.

Se o politicamente correto incomoda muita gente, para as minorias ela é a maneira de se construir resistências e de reagir contra preconceitos historicamente arraigados na sociedade.

Será que um dia veremos uma campanha contra a homofobia numa copa do mundo?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Adooro! – Séries

Iniciando mais uma (existe já alguma?) coluna no blog. A “Adooro!” vai falar sobre tudo o que eu.. hãn.. adoro no mundo do entretenimento, da cultura, da arte e é uma chance de eu dar uma de crítico no único espaço em que alguém (talvez) me leia nesta função: o meu próprio blog.

Começaremos com a melhor série de todos os tempos: Sixt Feet Under (No Brasil: A Sete Palmos). Resumo da Wikpédia: “Na série, criada por Alan Ball, Peter Krause é "Nathaniel ("Nate") Fisher Jr.", filho do dono de uma funerária que relutantemente se torna sócio do negócio da família com o seu irmão "David", estrelado por Michael C. Hall – agora em “Dexter”. A família "Fisher" também inclui a mãe "Ruth" (Frances Conroy) e a irmã "Claire" (Lauren Ambrose). Incluem-se em torno da família o assistente da funerária, o amigo "Federico Diaz" (Freddy Rodriguez), a namorada e eventual esposa de "Nate" chamada "Brenda Chenowith" (Rachel Griffiths – Agora em “Brothers and sisters”), e o namorado (e eventual marido) de "David", o polícial "Keith Charles" (Mathew St. Patrick). Toda a trama se desenvolve em torno do mundo da Fisher & Sons Funeral Home, uma fictícia empresa funerária nos dias atuais em Los Angeles, Califórnia”.

A série traz constantemente a questão da finitude humana e o quanto o se deparar com a morte modifica a maneira como vivemos, os laços que construímos. Pode-se dizer que o que os personagens tem em comum é um desamparo diante da vida, já que esta não tem sentido em si mesmo é preciso inventar algum ou simplesmente fugir desta tarefa, prendendo-se ao imediato.

O sem sentido da vida se evidencia na maneira banal como a morte acontece. Cada episódio começa com uma pequena história de como morreu a pessoa que terá seu funeral preparado pelos irmãos Fisher. A série é permeada por um humor ácido, mas não é seca ou mórbida, como poderia parecer à primeira vista. A identificação com os personagens se dá porque vamos percebendo que, eles e nós, estamos todos no mesmo barco: procurando viver o que realmente vale a pena, encontrar o melhor da existência mesmo em meio aos imprevistos, distrações e burradas, nossas e dos outros em relação a nós.

Os personagens são, em sua maioria, multifacetados e a relação entre eles muda muito ao longo das temporadas. É interessante acompanhar David e seus conflitos em relação à homossexualidade, a relação conturbada e abissal de Nate e Brenda e os trancos e barrancos que Claire enfrenta e provoca na difícil passagem para a vida adulta. O trabalho de Frances Conroy como Ruth é fenomenal. Uma mulher anulada pela vida familiar que, depois da morte do marido, tem de se redescobrir, se reiventar e faz isto em tãos variados estados de espírito, que vão da placidez à histeria, que é impossível não se apaixonar por Ruth.

Os últimos episódios, que não serão contados obviamente, são ousados e a seqüência final é belíssima. Apesar de tudo, a vida segue e se a gente não pode garantir que ela seja sempre como a gente projeta, nós podemos aprender a ficar com o melhor do que nos é oferecido. Fica a dica!

terça-feira, 29 de junho de 2010

iPraga



Meu combalido aparelho de som, após longa agonia, emitiu sua última nota. Aproveitando uma obrigatória passagem da minha irmã pelo Free Shop, lhe encomendei logo um iPod com respectivas caixas de som. Domingo passado ela voltou de viagem, mas me trouxe só a primeira parte da encomenda.

Depois do almoço de boas-vindas, lá fui eu zanzar por todas as lojas de produtos eletrônicos do gigantesco Barra Shopping. Não tinha visto nada que eu gostasse até que já cansado tive o que, parecia ser uma miragem: uma mega loja da Apple. Mas não! Era real! Inaugurada uma semana antes, a maior loja da Apple no Brasil, com vários modelos do que eu queria. As menores caixas tinham também um som bem pouco potente, a única que não testei foi uma em forma de porco, ah não, porco não dá, né?!

Escolhi uma na melhor relação potência/ tamanho/ preço e fui feliz pagar. Atrás de mim chegou uma tia. Devia ter seus sessenta e poucos, cabelos e sobrancelhas gritantemente tingidos de acaju e um porco nas mãos.
- Nossa que grande sua caixa.
-É.. (eu, sem vontade nenhuma de começar uma conversa)
- Vou levar o porquinho, é pequeno, mas tem um som ótimo.
-Legal...
Ufa! Chegara minha vez.
Enquanto pago, a tia me adverte:
-Não vai pedir pra testar? Olha que às vezes dá problema
Testar significava tirar do embrulho e conectar às duas caixas à base, esperar não sei qual funcionário chegar com o iPod dele, o único disponível em toda a loja já que eu não estava com o meu.
- Não vou não. Tô com pressa.
-Olha lá, hein...
Sem dar mais atenção pra tia, peguei minha sacola e saí.

Em casa conectei o iPod, ele funcionou, vi que estava carregando. Só que o som não saía de jeito nenhum! Reconectei as caixas, nada. Troquei-as de lado, nem um pio, nadinha da linda voz de Rufus Wainright. Agonia. Lembro então das sobrancelhas arqueadas e da voz da tia maldita que agora sai em lenta rotação: “Olha que às vezes dá problema”... inferno! Acho que a bruxa de Acaju me lançou uma iPraga.
Se tem alguma coisa que eu detesto é quando as coisas não dão certo. Semanas esperando meu novo som e agora, nada. Merda! Fiquei rogando várias pragas pra tia: que trocassem, na sua próxima ida ao salão, a tinta acaju por ácido sulfúrico, ou que as sobrancelhas caíssem, ou que o porco fosse na verdade uma bomba terrorista que se destinava à Apple dos E.U.A. e veio pra cá por engano. Quando já tinha desistido e pego de volta a caixa para guardar o aparelho, me dei conta de algo: tinha esquecido de ligá-lo na tomada.

A luz se acendeu nas caixas e o som começou a tomar toda a minha sala: Coldplay, cantando uma das minhas favoritas: Clocks. Vou tomar banho. Lá dentro do box, o som chega estranho, ruidoso. Fora também! Na verdade, tem uma caixa que está chiando pacas, saco! Me aparece de novo a figura da tia de acaju. Desta vez, torço para que ele, ao sair da loja, tenha tropeçado e o porco rolado para o meio da Av. das Américas, sendo triturado por um rolo-compressor que estivesse fazendo obras no local.

O jeito é ir até a Barra na manhã seguinte para trocar a porcaria.
Dia seguinte, acordo cedo e saio com a pesada sacola na mão: metrô até a estação Ipanema, ônibus para a Barra, longe, muito longe e engarrafado. Morte às tias de acaju! Já na loja uma recompensa, quem me atende é um vendedor gatinho, com aquele sotaque-delícia do Sul. Testamos o som, desta vez, a caixa que estava chiando, nem funciona. Pegamos outro aparelho, Ele já ia mandar embrulhar quando eu exijo que o abram para testar, Tia deve estar dando gargalhadas e repetindo mentalmente: “Eu te avisei, hahaha... Eu te disse...”.

Testamos o novo aparelho e... um canal de som não funciona! De novo! O gerente pergunta se eu não quero levar outro modelo. Digo que quero um som mais potente e aqueles que estavam ali não me satisfaziam. Foi quando o vendedor-gaúcho-gato me disse:
- O iPig é mais potente que este que você comprou.
O porco!
Contrariado, resolvo testá-lo. Impressionante a capacidade da coisa.
Reflexão mental: Hum... é um porco, não! É bem menor que o outro, sim! O som é ainda mais potente, Yes! e é R$ 200 mais caro, Puta que o pariu!
- Você só tem em amarelo?
Olhos verdes, além de tudo o cara tem olhos verdes.. aiai
- Não senhor, temos ele em branco e preto também.
(Putz, não me chama de “senhor” que eu já imagino uma coisa dominadora.. você preso a correntes, de sunga de couro.. e eu com uma chibata...)
-Senhor?
-Hum... – Olhei de novo pro porco, de repente, tive uma luz. Ele parece, parece... um extra-terrestre, sim! Uau!! Que legal uma caixa de som no formato de um E.T.!

Paguei os R$ 200 a mais e cá estou feliz e contente ouvindo “A menina dança” dos Novos Baianos no meu iE.T. enquanto escrevo este post.
Mas pensa que me arrependi das pragas contra a tia? Tsc... tsc... tsc... Não mesmo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Você tem sede de que? Você tem fome de quê?

É claro que se você tem o bastante para investir em tudo o que deseja e satisfazer todos os seus sonhos de consumo, não há impasse nenhum em como ivestir/ gastar/ desperdiçar sua grana. Mas para a imensa maioria das pessoas, inclusive para este blogueiro que vos escreve, não é assim que as coisas acontecem.

Pagas as contas, sobra, Graças a Deus, sempre uma graninha. Disso que sobra, eu tiro sempre mais um dinheirinho para manter guardado, afinal sabe-se lá quando você vai ter uma emergência.

E o resto? Em geral eu mantenho o máximo possível na conta. Fico com uma pena danada de gastar meu suado salário. Mas há fases em que invisto.

Logo quando eu deixei a vida religiosa, há quatro anos, quis gastar me proporcionando tudo o que eu não tinha vivido até então. Isto significa todo um novo guarda-roupa, pois eu só usava conjuntos sociais bem tradicionais, leia-se, totalmente sem graça. Gastava muito na night também. Saia, às vezes, Sábado e Domingo. E era habitual na Sexta ir para uma bar/boate, chamado The Copa aqui no Rio. Música pop, caras na faixa dos quarenta e noites inesquecíveis. O problema é que só durava até umas quatro e meia da manhã e eu queria muito mais. Fácil pegar um táxi e ir para o after na Dama de ferro, lugar então dos moderninhos, muito escuro, muito eletrônico, total piração. Por volta de onze e meia, meio-dia, a luz do sol quase me desintegrava quando eu saía, sonâmbulo, para me jogar no sofá de casa sob os olhares aterrorizados da minha mãe, morava com meus pais na época.

Tive a fase também de cuidar da pele obstinadamente. Dá-lhe peelings e outros tratamentos com luzes miraculosas e nomes esquisitos. Até que percebi que poderia passar a vida toda, e gastar tudo o que tinha com aquilo. Talvez tenha sido a decepção pós-preenchimento. Saí do consultório lindo, sem marca nenhuma de acne, e acordei no dia seguinte como se não tivesse gasto uma grana com a porcaria. Minha dermato na época disse que como o produto era à base d´água, poderia evaporar alguma coisa, ela só não disse que poderia ser tudo.

Ultimamente tenho gasto muito com livros. Sempre fizeram parte da minha cesta básica é verdade, mas estou numa fase ensandecida. Quero comprar todos os clássicos das Ciências Sociais, e me dá um frisson danado ver minha biblioteca aumentando. Evito as livrarias, corro pra longe dos sebos, retirei dos favoritos a “Estante Virtual”, mas mesmo assim, caio em tentação. Porém, ei de vencer! Talvez procure algo como um “Compradores Compulsivos de Livros Anônimos”. Quando isto acontecer, já sei o que fazer, começar a investir minha minguada graninha num novo projeto: viajar mais. Mas pra isto é preciso poupar. Com minha grana atual, não dá nem pra um sofá-cama em Paraopeba.


E porque hoje é Sexta:

terça-feira, 22 de junho de 2010

Total Eclipse of the Heart

Sugestão brega: Leia o post ouvindo:




Sentado à mesa de um bar novo na lapa, com o copo da pura cachaça ainda na mão e o gosto quente que começava a se espalhar pela boca, pergunto a Marcelo:
- Você acha que se apaixona rápido demais?
A surpresa é nítida em seu rosto. Ele me disse que não está apaixonado por Hugo, seu namorado. O que me soa como uma contradição.
- Por que você está namorando então?

Um outro amigo, uma vez disse-me que sabe que é hora de começar a namorar quando sente que está extrapolando demais na vida de solteiro, precisa sossegar o facho.

Meio brincando, meio séria, Jú me pergunta por que eu não tento com o bonitinho que ficou me dando mole. “– Porque não to a fim dele, Jú”. Diante da minha resposta ela exclama inconformada: “-Depois não reclama de ficar pra titia”.

Causam-me muita estranheza os motivos que levam alguém a começar um namoro. E eu tenho achado que, na verdade, estou equivocado em esperar que alguém realmente me chame a atenção a tal ponto que seja nítida minha vontade em começar uma história com a pessoa. Nas vezes em que forcei a barra, no esquema de “vamos ver o que rola”, em menos de das semanas, estava completamente saudoso da minha solteirice. Eu não sei se por comodismo, medo, costume, a verdade é que eu me acostumei e descobri o lado bom da minha solidão. Ou a pessoa entra de forma suave e bem-vinda, há um desejo real de tê-la comigo, ou não acontece namoro algum. Manter alguém fazendo esforço, por alguns momentos de prazer a dois, ou para ter a sensação de companhia e cumplicidade, é um esforço tão hercúleo para mim que fico logo exausto.

Faz oito meses que estou solteiro. De Outubro pra cá ninguém me chamou minimamente a atenção. Tenho sentido tesão, feito novas amizades, procurado gente diferente para juntos descobrir novos mundos, mas nada que se aproximasse de algo como um “namorado”. Não acho isto estranho, embora em momentos de carência seja meio desesperador. O fato é que estou chegando num ponto em que “ficar” já não me atrai tanto, a facilidade e o caráter absolutamente descartável dos encontros me cansa e até mesmo o sexo se torna algo requentado, ainda que não possa anular minha fome. No entanto, como fugir disso? Não há como produzir um encontro realmente significativo. Você pode estar aberto, estar atento, mas provocá-lo, não.

Se eu pudesse escolher, modificaria meus padrões, abaixaria meus critérios e seria infeliz para sempre ao lado de alguém que eu não gosto. Mas isto não é uma opção. O difícil é quando depois de um dia de trabalho, sentado no metrô, voltando pra casa, você começa a pensar o quanto seria bom ter alguém à sua espera. Os amigos estranham a minha constante falta de companhia (e como eu tenho amigos casados!) e começo a me perguntar se não há nada errado comigo. Seria um eclipse total do coração?