É tudo grande, comprido, largos espaços, longos corredores. O cais do porto, uma das zonas mais degradadas do Rio, recebeu uma maquiagem completa, como só um evento de moda poderia fazer. Até a degradação ficou chique, uma coisa meio decadénce com grife.
Encontramos a Miss Brasil bem na entrada e se no carnaval pulando conosco sob o sol de Ipanema ela já era linda, produzida para os holofotes e flashes dos fotógrafos, fazendo pose em mil camarotes, parecia mesmo um outro tipo de gente, diferente de nós, meros mortais “hum.. até que hoje eu to bonito”.
Pulseirnhas postas, entramos no camarote da revista da moda, guiados devidamente pelo Mister Atol das Rocas, mais corpaço que beleza, mas muito simpático e a nossa porta de entrada para o mundo dos canapés de alcachofra com limão siciliano. Mas o que me importava mesmo estava aos litros dentro do reluzente balde de gelo: Champagne. O camarote parecia um mini-zôo fashion, com todas a as espécies possíveis deste estranho universo: bichas cabelereiras à la Lady Gaga, assistentes histéricos com crachás enormes fazendo poses, anãs-fashions de cabelo chanel sentindo-se Mirandas Priestlys, as próprias Mirandas Priestlys, anônimos querendo passar por famosos, celebridades fingindo que queriam passar anônimas. Do nada, aparecem ex-BBB’ s (Ex-Hein? Quem?) mais flashes pipocam, alguns globais, cantoras que um dia estiveram na moda e nós, os bicões alienígenas só bebendo de graça.
Na verdade, todo o clima era muito estranho. Uma mise-en-scéne completa. A impressão que eu tinha enquanto sorvia em goles prazerosos as plásticas taças de champagne era que a qualquer momento uma sirene tocaria e todo mundo começaria a desfazer os inusitados penteados, tirar a maquiagem bizarra, parar com a encenação e voltar a ser gente de verdade. Um arrepio percorreu-me a alma quando entendi que ninguém iria se desfazer da sua persona, e se um dia o quiserem, talvez não possam porque, como diz o poema, por tanto tempo ali, a máscara grudou-se à cara e já não há quem possa arrancá-la.
Não falo mal da moda. Sei que é uma indústria como outra qualquer. Também um campo onde se expressa a criatividade e o gênio humano. Refiro-me à esta atitude poser que emana das modelos dos desfiles e atinge a todos em qualquer momento e função. Alguém segura uma taça como se fosse sair na capa da próxima Vanity Fair ou vai até o banheiro sentindo-se La Bündchen no principal desfile da noite.
Até que meu novo cavanhaque pós-moderno funcionou super bem, se eu me comportasse um pouquinho como alguém que deseja conquistar o mundo numa cruzada de pernas ou estivesse usando alguma peça de roupa bizarra e original, poderia quase passar por um deles.
Mas não, o bom mesmo é observar este estranho universo, enquanto aproveito o melhor dele: Champagne, do bom e de graça!
Ouvindo: Chelsea Hotel - Rufus Wainwright
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Música!!!!!!!!!!
Sei que rolou recentemente pelos blogs visitados um meme de música, para o qual eu não fui indicado e escrevo isto sem mágoas (rs). Mas como eu concordo inteiramente com Nietzsche quando disse que a vida sem música seria um erro, vou pôr este tema na roda aqui no Tanta Coisa!
Impossível seria, como exigia o meme, escolher uma música apenas. Sou eclético o suficiente para amar várias e na verdade nem há uma preferida por época, ciclo ou fase da vida. Comigo a música funciona mais como trilha sonora de diversos momentos.
De manhã cedo, quando você precisa arranjar uma energia que não tem para começar o dia, a cabeça ainda zonza de sono: Madonna! Qualquer dançante dela, só pra lembrar que a tia não dormiu no ponto pra chegar aos cinqüenta com aquele corpinho... Vai pra academia.
Depois, você toma um banho, relaxa feliz, com uma sensação boa no corpo ao som de Wilson Simonal, todo o swingue e gingado daquela delícia de música chamada Sá Marina. Indo pro trabalho a seleção musical no meu Ipobre (nome científico: MP3 player) continua bem eclética, vai de Madredeus a The Killers. E o que é melhor do que, enquanto prepara um jantarzinho rápido, depois de um longo dia de trabalho, tomar uma taça de vinho ao som de Etta James ou Cole Porter?
Sábado é um dia à parte. Acorde espriguiçadamente (sim, é um neologismo) ao som de música francesa: Carla Bruni e Bensé (Obrigado Visão, tô adorando), prepare um almoço especial para alguns amigos ouvindo Buena Vista Social Clube e à tardinha chame um pretê para uns amassos aos som do Gotan Project ou se jogue no mundo de forma louca e incrível, só tome um cuidado: escolha a pista certa!
Música é tudo de bom!
Impossível seria, como exigia o meme, escolher uma música apenas. Sou eclético o suficiente para amar várias e na verdade nem há uma preferida por época, ciclo ou fase da vida. Comigo a música funciona mais como trilha sonora de diversos momentos.
De manhã cedo, quando você precisa arranjar uma energia que não tem para começar o dia, a cabeça ainda zonza de sono: Madonna! Qualquer dançante dela, só pra lembrar que a tia não dormiu no ponto pra chegar aos cinqüenta com aquele corpinho... Vai pra academia.
Depois, você toma um banho, relaxa feliz, com uma sensação boa no corpo ao som de Wilson Simonal, todo o swingue e gingado daquela delícia de música chamada Sá Marina. Indo pro trabalho a seleção musical no meu Ipobre (nome científico: MP3 player) continua bem eclética, vai de Madredeus a The Killers. E o que é melhor do que, enquanto prepara um jantarzinho rápido, depois de um longo dia de trabalho, tomar uma taça de vinho ao som de Etta James ou Cole Porter?
Sábado é um dia à parte. Acorde espriguiçadamente (sim, é um neologismo) ao som de música francesa: Carla Bruni e Bensé (Obrigado Visão, tô adorando), prepare um almoço especial para alguns amigos ouvindo Buena Vista Social Clube e à tardinha chame um pretê para uns amassos aos som do Gotan Project ou se jogue no mundo de forma louca e incrível, só tome um cuidado: escolha a pista certa!
Música é tudo de bom!
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Livre (!?)
“É evidente, portanto, que alguns homens são livres por natureza, enquanto outros são escravos, e que para estes últimos a escravidão é conveniente e justa”.
Este é um trecho da obra Política de Aristóteles, no qual a cabeça que fundou o Ocidente como o conhecemos, justifica como natural a escravidão. Haveria uma ordem de coisas que submete o inferior ao superior em tudo, inclusive na humanidade. Na própria obra, ele cita que outros entendem que haja uma dignidade fundamental e igual para todos os homens, mas não, esta não é a posição dele.
A partir daí toda a justificação histórica da escravidão teve que apelar para alguma forma de justiça que estaria impregnada nesta prática: os índios seriam escravizados porque se questionava se tinham alma ou não, os negros porque seriam de uma raça tão inferior que se aproximariam muito mais dos animais que dos seres humanos, leia-se, europeus.
Nas formas de escravidão contemporâneas, bem mais sutis, ainda que também extremamente cruéis, o pobre, muitas vezes, é visto como alguém que não teve criatividade e força de vontade o suficiente para progredir. São preguiçosos, acomodados, sem perspectiva, dizem muitos. Os ávidos consumidores do lixo comercial que se transmite nas rádios e tv’s são desta forma porque não tem “cultura”, tem mal gosto.
Mas o que me impactou no momento que eu li, foi este “livres por natureza”. Nós somos livres por natureza? Há pessoas com espírito livre e outras que, nauseadas com a vertigem da possibilidade de escolher se agarram a ferros, teorias, valores... para não precisar ser livre?
Fiquei pensando em mim mesmo. Fazia parte da ficção que eu durante anos teci para cobrir minha incômoda nudez, a certeza de que eu era livre, absolutamente livre e libertador! Mas no fundo, isto era só uma alegoria desesperada de um carnaval de anos feita para esconder a cara, tampar o rosto de quem se experimentava, para além das camadas superficiais, muito frágil para lidar com o árduo de estar no mundo, de ser parte da vida. E tanta energia era gasta neste desfile de trajes surpreendentes que eu mesmo tomei muito pouco contato com a minha força autêntica, na tentativa de sustentar a inventada que escondesse o agudo senso de estranheza que eu tinha em relação a tudo.
Esta falsa-força, força-fake, força-loira-de-farmácia, se dava em jatos. Era como uma multidão de mulheres a segundos de uma liquidação irresistível ou um jejum de anos diante de um buffet de comida a quilo. Tudo rápido, intenso, absorvente, para se esgotar, se extinguir, até que num outro salto e espasmo se produzisse de novo.
Tem uns quatro anos que comecei de verdade, a despir a fantasia. E tirar a maquiagem me fez ver um rosto muito mais belo que imaginava em meus temores, um corpo que vai se tornando robusto porque é experimentado em provas e olhos que sabem que chorar de medo, de vez em quando, até que as pernas se realinhem para continuar a caminhar, não tem problema nenhum.
A gente não nasce livre por natureza, a gente se torna livre. Por opção e teimosia.
Este é um trecho da obra Política de Aristóteles, no qual a cabeça que fundou o Ocidente como o conhecemos, justifica como natural a escravidão. Haveria uma ordem de coisas que submete o inferior ao superior em tudo, inclusive na humanidade. Na própria obra, ele cita que outros entendem que haja uma dignidade fundamental e igual para todos os homens, mas não, esta não é a posição dele.
A partir daí toda a justificação histórica da escravidão teve que apelar para alguma forma de justiça que estaria impregnada nesta prática: os índios seriam escravizados porque se questionava se tinham alma ou não, os negros porque seriam de uma raça tão inferior que se aproximariam muito mais dos animais que dos seres humanos, leia-se, europeus.
Nas formas de escravidão contemporâneas, bem mais sutis, ainda que também extremamente cruéis, o pobre, muitas vezes, é visto como alguém que não teve criatividade e força de vontade o suficiente para progredir. São preguiçosos, acomodados, sem perspectiva, dizem muitos. Os ávidos consumidores do lixo comercial que se transmite nas rádios e tv’s são desta forma porque não tem “cultura”, tem mal gosto.
Mas o que me impactou no momento que eu li, foi este “livres por natureza”. Nós somos livres por natureza? Há pessoas com espírito livre e outras que, nauseadas com a vertigem da possibilidade de escolher se agarram a ferros, teorias, valores... para não precisar ser livre?
Fiquei pensando em mim mesmo. Fazia parte da ficção que eu durante anos teci para cobrir minha incômoda nudez, a certeza de que eu era livre, absolutamente livre e libertador! Mas no fundo, isto era só uma alegoria desesperada de um carnaval de anos feita para esconder a cara, tampar o rosto de quem se experimentava, para além das camadas superficiais, muito frágil para lidar com o árduo de estar no mundo, de ser parte da vida. E tanta energia era gasta neste desfile de trajes surpreendentes que eu mesmo tomei muito pouco contato com a minha força autêntica, na tentativa de sustentar a inventada que escondesse o agudo senso de estranheza que eu tinha em relação a tudo.
Esta falsa-força, força-fake, força-loira-de-farmácia, se dava em jatos. Era como uma multidão de mulheres a segundos de uma liquidação irresistível ou um jejum de anos diante de um buffet de comida a quilo. Tudo rápido, intenso, absorvente, para se esgotar, se extinguir, até que num outro salto e espasmo se produzisse de novo.
Tem uns quatro anos que comecei de verdade, a despir a fantasia. E tirar a maquiagem me fez ver um rosto muito mais belo que imaginava em meus temores, um corpo que vai se tornando robusto porque é experimentado em provas e olhos que sabem que chorar de medo, de vez em quando, até que as pernas se realinhem para continuar a caminhar, não tem problema nenhum.
A gente não nasce livre por natureza, a gente se torna livre. Por opção e teimosia.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Bom Final-de-semana
É bom acabar o final de semana assim. Um gosto doce na boca, sensação de quietude e daquela alegria boa de quem teve um finde agitado, mas fantástico, em última instância.
A sexta começou bem. Depois de três dias preparando um seminário sobre “O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro” do livro “Casa-grande & Senzala”. Tema bom (adoro um cafuçu... hehe) para uma aula que vai até às 21h da noite de Sexta, mas que adoro. Professor excelente e proposta sedutora: Pensar o que significa ser brasileiro, o que forma esta identidade ao longo da história.
Depois um chope com um pretê. Eu já o conhecia de uma balada, ficamos uma vez e nos esbarramos de novo agora, por acaso. Tinha me esquecido que o conheci antes da minha promessa: nunca mais falar no primeiro encontro que sou formado em Filosofia e faço Ciências Sociais. As pessoas se sentem na obrigação de ser cultas e desfilar teorias complexas sobre tudo, ficam pessimistas porque acham que isto é ser crítico, e deploram a alienação dos pobres mortais, numa palavra, ficam insuportáveis. Tudo o que você quer é só encontrar alguém legal, falar da vida, rir um bocado e, quem sabe, depois de tudo isto, ter uma noite ótima de sexo. Mas não, o cara se comporta como se estivéssemos num seminário em Harvard discutindo o futuro do planeta... Aff!
Sábado foi o dia mais esquizofrênico dos últimos tempos. Passei a tarde toda quase, quatro horas para preparar uma aula, que, em geral, eu faço em duas horas. Cabeça fundida, neurônios abilolados, conexões cerebrais em repouso profundo. Quando chegou a hora de ir pra casa da queridona Bia, para lhe dar ma força na festa de aniversário, foi como uma libertação. Por outro lado, a noite, a festa, foi incrível. Música maravilhosa, comida boa, gente de primeiríssima. Acho que conhecia 4pessoas.. mas depois de um tempo, já tinha conversado com boa parte da festa. Cheguei em casa às 6h30.
Domingo foi o dia escolhido pra não fazer nada de obrigação, nem mercado que eu tô precisando. Almoço com outros amigos (também aniversário) e uma sensação gostosa de deixar o dia passar, acontecer sem pressa, nem metas a cumprir. Um sentimento de estar confortável com a sua vida e estar orgulhoso da maneira como você a vem construindo, esta coisa de se olhar no espelho e dizer: “Putz, eu sou um cara muito legal..” .... rs.
E agora to aqui, ouvindo música francesa, tomando um vinhozinho e escrevendo este post que ficou meio “Minhas férias” que a tia da escola pedia no primeiro dia de aula, mas tá valendo. Espero que vocês todos estejam bem.
P.S. Ah, se tem tanta gente legal nesta blogosfera, porque manter contato só através de comentários? Pra quem quiser bater um papo meu msn: rafael-morello@hotmail.com. Entro praticamente só no final de semana, mas será uma alegria encontra-los on-line. Há, só peço que se identifiquem como blogueiros ok? Não adiciono gente que eu não conheço. Abc!
A sexta começou bem. Depois de três dias preparando um seminário sobre “O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro” do livro “Casa-grande & Senzala”. Tema bom (adoro um cafuçu... hehe) para uma aula que vai até às 21h da noite de Sexta, mas que adoro. Professor excelente e proposta sedutora: Pensar o que significa ser brasileiro, o que forma esta identidade ao longo da história.
Depois um chope com um pretê. Eu já o conhecia de uma balada, ficamos uma vez e nos esbarramos de novo agora, por acaso. Tinha me esquecido que o conheci antes da minha promessa: nunca mais falar no primeiro encontro que sou formado em Filosofia e faço Ciências Sociais. As pessoas se sentem na obrigação de ser cultas e desfilar teorias complexas sobre tudo, ficam pessimistas porque acham que isto é ser crítico, e deploram a alienação dos pobres mortais, numa palavra, ficam insuportáveis. Tudo o que você quer é só encontrar alguém legal, falar da vida, rir um bocado e, quem sabe, depois de tudo isto, ter uma noite ótima de sexo. Mas não, o cara se comporta como se estivéssemos num seminário em Harvard discutindo o futuro do planeta... Aff!
Sábado foi o dia mais esquizofrênico dos últimos tempos. Passei a tarde toda quase, quatro horas para preparar uma aula, que, em geral, eu faço em duas horas. Cabeça fundida, neurônios abilolados, conexões cerebrais em repouso profundo. Quando chegou a hora de ir pra casa da queridona Bia, para lhe dar ma força na festa de aniversário, foi como uma libertação. Por outro lado, a noite, a festa, foi incrível. Música maravilhosa, comida boa, gente de primeiríssima. Acho que conhecia 4pessoas.. mas depois de um tempo, já tinha conversado com boa parte da festa. Cheguei em casa às 6h30.
Domingo foi o dia escolhido pra não fazer nada de obrigação, nem mercado que eu tô precisando. Almoço com outros amigos (também aniversário) e uma sensação gostosa de deixar o dia passar, acontecer sem pressa, nem metas a cumprir. Um sentimento de estar confortável com a sua vida e estar orgulhoso da maneira como você a vem construindo, esta coisa de se olhar no espelho e dizer: “Putz, eu sou um cara muito legal..” .... rs.
E agora to aqui, ouvindo música francesa, tomando um vinhozinho e escrevendo este post que ficou meio “Minhas férias” que a tia da escola pedia no primeiro dia de aula, mas tá valendo. Espero que vocês todos estejam bem.
P.S. Ah, se tem tanta gente legal nesta blogosfera, porque manter contato só através de comentários? Pra quem quiser bater um papo meu msn: rafael-morello@hotmail.com. Entro praticamente só no final de semana, mas será uma alegria encontra-los on-line. Há, só peço que se identifiquem como blogueiros ok? Não adiciono gente que eu não conheço. Abc!
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Conto inútil de Outono
Ele sempre enxergou a vida torta. Como se fosse acometido de uma patologia única, que não dói, não progride, apenas não oferece nenhum descanso, nenhuma consolação. Um vírus que lhe faz saltar aos olhos a infinita distância entre desejo e realidade. Por, também olhar torto para as pessoas, percebia-lhes as incongruências, adivinhando suas mesquinharias.
Um olhar de raio X capaz de se infiltrar por todas as camadas de maquiagem, posição social, alegadas boas intenções e captar-lhes só o humano: mofado, verminoso, fétido lá dentro, seja onde fosse este “lá”. Por isto não tinha esperanças, não se congratulava em copas do mundo, não dava pêsames em enterros. Vivia uma vida como planta, respirando, alimentando-se, se fosse possível, faria até fotossíntese. Sem desejo, sem aspirações, total e completamente entregue ao momento, sem esperar futuro, nem recordar passado. Quase um budista sem meditação, dharma ou karma. Muito menos nirvana, ao qual experimentava, no entanto, em fragmentos esporádicos, ao lhe, finalmente, sair o cocô do cú, à primeira mordida que satisfaz a fome, ao enfiar o pau em qualquer coisa ou pessoa. Sensações, eis o nirvana. O mesmo do cão sedento diante do pote d’água ou do doente que começa a sentir o efeito analgésico do remédio.
Viveu anos assim, até que, num dia de Maio, levantou-se. Urinou em fortes jatos, nirvana. E aproximando-se da janela, percebeu como a luz incidia oblíqua sobre tudo àquela hora. Ouviu um piar, soprou alguma leve brisa. Teve o conhecimento exato de que ninguém no mundo inteiro percebera. As pessoas passavam indiferentes, ocupadas, com sacolas, chegavam rarefeitas suas vozes ao terceiro andar. Ninguém soubera. Foi então que, estremeceu e com o olhar embaçado, não torto, aceitou: a vida.
Um olhar de raio X capaz de se infiltrar por todas as camadas de maquiagem, posição social, alegadas boas intenções e captar-lhes só o humano: mofado, verminoso, fétido lá dentro, seja onde fosse este “lá”. Por isto não tinha esperanças, não se congratulava em copas do mundo, não dava pêsames em enterros. Vivia uma vida como planta, respirando, alimentando-se, se fosse possível, faria até fotossíntese. Sem desejo, sem aspirações, total e completamente entregue ao momento, sem esperar futuro, nem recordar passado. Quase um budista sem meditação, dharma ou karma. Muito menos nirvana, ao qual experimentava, no entanto, em fragmentos esporádicos, ao lhe, finalmente, sair o cocô do cú, à primeira mordida que satisfaz a fome, ao enfiar o pau em qualquer coisa ou pessoa. Sensações, eis o nirvana. O mesmo do cão sedento diante do pote d’água ou do doente que começa a sentir o efeito analgésico do remédio.
Viveu anos assim, até que, num dia de Maio, levantou-se. Urinou em fortes jatos, nirvana. E aproximando-se da janela, percebeu como a luz incidia oblíqua sobre tudo àquela hora. Ouviu um piar, soprou alguma leve brisa. Teve o conhecimento exato de que ninguém no mundo inteiro percebera. As pessoas passavam indiferentes, ocupadas, com sacolas, chegavam rarefeitas suas vozes ao terceiro andar. Ninguém soubera. Foi então que, estremeceu e com o olhar embaçado, não torto, aceitou: a vida.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Eu sou uma pessoa melhor quando bebo
Sei que é muito feio admitir isto. Ao longo da história da humanidade se tem inventado as mais nobres desculpas para se ingerir a substância alcoólica em qualquer das suas formas: bebemos para celebrar, eis o brinde; porque está frio, viva a vodka, para agradar aos deuses, oblações judaicas de vinho e o vinho católico da missa. Mas a pura verdade, tão pura como um whisky cowboy, é que beber torna as pessoas melhores, em geral.
Eu, por exemplo, sou um cara bem legal. Inteligente, de bom-humor, interessado de verdade em um monte de coisas deste mundão e nas pessoas que nele habitam. Só que tudo isto que por si só é capaz de me conectar a outros durante horas de boa conversa, se encontra escondido, envolto por uma camada de timidez mal disfarçada.
Não sei se foi a minha família a culpada. Uma das contribuições mais legais de Freud é que você pode, desde então, jogar toda e qualquer culpa em cima de seus pais, que desorganizaram suas pulsões e bagunçaram completamente os tais id, ego e superego. Enfim, minha família é envergonhada. Meu pai sempre exerceu uma espécie de censura sobre qualquer espontaneidade, há pairando na casa deles até hoje, em cada cômodo, um: “O que será que vão pensar?” que, felizmente, consigo deixar atrás da porta quando saio de minhas visitas. Mas faz parte da minha história.
Um outro elemento foi minha formação no seminário. Pra quem não sabe estive 10 anos na vida religiosa. E junto com muita coisa boa, engoli muito de mim mesmo durante um bom tempo, até que, ou eu morria de úlcera, ou tomava a decisão mais importante da minha vida: sair.
Enfim, não sei de que argamassa e tijolo esta barreira superficial, mas extensa, é construída. Este muro que fica entre os outros e o melhor de mim mesmo. Só sei que o álcool é mesmo uma das portas para dinamitá-la. Penso que se eu não tivesse nada por dentro, nem litros de absinto ajudariam. Mas o tanto que preciso é só pra driblar minha timidez e aquilo que sou eu, o melhor escondido de mim, faz o resto.
Quer um exemplo? Meu melhor namoro (até agora, please!!) começou com a ajudinha de 3 chopes. Estava eu, despretensiosamente, bebendo com amigos em um bar, careta, diga-se de passagem, quando reparei num cara sozinho algumas mesas afastado. Eu olhei, ele olhou, ele encarou, eu sorri e se eu estivesse tomando um suco de caju, não tinha passado disto. Mas, 3 chopes depois, eu percebo que o dele estava acabando. Levanto-me, pego minha tulipa e, para espanto dos meu amigos, vou até a mesa dele.
- Oi, eu vi que seu chope tá quase no fim e não queria perder a oportunidade de brindar contigo nesta noite incrível.
Resultado: Um ano maravilhoso de namoro. Eu, definitivamente, sou uma pessoa melhor quando bebo.
Eu, por exemplo, sou um cara bem legal. Inteligente, de bom-humor, interessado de verdade em um monte de coisas deste mundão e nas pessoas que nele habitam. Só que tudo isto que por si só é capaz de me conectar a outros durante horas de boa conversa, se encontra escondido, envolto por uma camada de timidez mal disfarçada.
Não sei se foi a minha família a culpada. Uma das contribuições mais legais de Freud é que você pode, desde então, jogar toda e qualquer culpa em cima de seus pais, que desorganizaram suas pulsões e bagunçaram completamente os tais id, ego e superego. Enfim, minha família é envergonhada. Meu pai sempre exerceu uma espécie de censura sobre qualquer espontaneidade, há pairando na casa deles até hoje, em cada cômodo, um: “O que será que vão pensar?” que, felizmente, consigo deixar atrás da porta quando saio de minhas visitas. Mas faz parte da minha história.
Um outro elemento foi minha formação no seminário. Pra quem não sabe estive 10 anos na vida religiosa. E junto com muita coisa boa, engoli muito de mim mesmo durante um bom tempo, até que, ou eu morria de úlcera, ou tomava a decisão mais importante da minha vida: sair.
Enfim, não sei de que argamassa e tijolo esta barreira superficial, mas extensa, é construída. Este muro que fica entre os outros e o melhor de mim mesmo. Só sei que o álcool é mesmo uma das portas para dinamitá-la. Penso que se eu não tivesse nada por dentro, nem litros de absinto ajudariam. Mas o tanto que preciso é só pra driblar minha timidez e aquilo que sou eu, o melhor escondido de mim, faz o resto.
Quer um exemplo? Meu melhor namoro (até agora, please!!) começou com a ajudinha de 3 chopes. Estava eu, despretensiosamente, bebendo com amigos em um bar, careta, diga-se de passagem, quando reparei num cara sozinho algumas mesas afastado. Eu olhei, ele olhou, ele encarou, eu sorri e se eu estivesse tomando um suco de caju, não tinha passado disto. Mas, 3 chopes depois, eu percebo que o dele estava acabando. Levanto-me, pego minha tulipa e, para espanto dos meu amigos, vou até a mesa dele.
- Oi, eu vi que seu chope tá quase no fim e não queria perder a oportunidade de brindar contigo nesta noite incrível.
Resultado: Um ano maravilhoso de namoro. Eu, definitivamente, sou uma pessoa melhor quando bebo.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Divagações depois de um bom dia
É estranha esta sensação de cansaço físico e nenhum sono. Você chega morto de um dia maravilhoso, com amigos queridos, flanando por um dos bairros mais charmosos do Rio, Santa Tereza, pronto pra tomar banho e dormir imediatamente. De repente, a cama fica imensa, vira-se de um lado a outro, uma espessa névoa recai sobre seus pensamentos e mais do que a penumbra do quarto, sua alma se torna sombria.
Do teto estalactites se formam sob o impacto de um frio de séculos que em minutos se cristaliza: a solidão. E tudo o que se quer naquele momento é alguém a seu lado que irradia luz e calor, acolha o teu rosto junto a seu peito quente e seque toda a lágrima com suas mãos reconfortantes. Alguém para se aninhar e ficar como se o corpo dele fosse toda a fonte de calor do universo, pulsando junto ao seu, alimentando o que em você é tão débil, que chega a doer nos ossos como se fosse um reumatismo, mas você sabe que não é.
Então a ausência se torna ainda maior e mais profunda e tudo o que se tem é esta presença ao contrário, de algo que você sente só porque não existe, um doce que apenas começa a ser sorvido, já o fel toma conta de toda a boca.
Você se levanta, toma um pouco d`água e tudo vai voltando às suas reais proporções. De fato, você está só, mas por mais que seja muito bom ter alguém ao lado, há espaços que não se preenchem, alturas que não se chegam, e centros que não se atingem: uma solidão que é preciso encarar porque nos faz humanos, anda que seja muito bom distraí-la, às vezes, com fantasias e máscaras de comunhão perfeita e amor eterno.
O amor verdadeiro é um encontro entre duas solidões que se dão as mãos. E o nosso problema é achar que de algum modo, alguém tem que nos resgatar de forma absoluta da nossa. O vácuo, o vazio é aquilo que nos faz ir adiante, continuar em busca: do amor, de um deus qualquer, de uma felicidade possível. Neste sentido, só o ser humano é capaz de solidão: a sempre, maior ou menor discrepância entre o que se tem e o tanto que se almeja.
Talvez isto sejam só divagações tolas numa quase madrugada de Segunda-feira. Talvez não. De qualquer modo, é ótimo poder escrevê-las livremente por aqui enquanto o corpo cansado pede repouso e a mente, agora em paz, num instante, lhe vai obedecer. Boa-noite, queridos.
Do teto estalactites se formam sob o impacto de um frio de séculos que em minutos se cristaliza: a solidão. E tudo o que se quer naquele momento é alguém a seu lado que irradia luz e calor, acolha o teu rosto junto a seu peito quente e seque toda a lágrima com suas mãos reconfortantes. Alguém para se aninhar e ficar como se o corpo dele fosse toda a fonte de calor do universo, pulsando junto ao seu, alimentando o que em você é tão débil, que chega a doer nos ossos como se fosse um reumatismo, mas você sabe que não é.
Então a ausência se torna ainda maior e mais profunda e tudo o que se tem é esta presença ao contrário, de algo que você sente só porque não existe, um doce que apenas começa a ser sorvido, já o fel toma conta de toda a boca.
Você se levanta, toma um pouco d`água e tudo vai voltando às suas reais proporções. De fato, você está só, mas por mais que seja muito bom ter alguém ao lado, há espaços que não se preenchem, alturas que não se chegam, e centros que não se atingem: uma solidão que é preciso encarar porque nos faz humanos, anda que seja muito bom distraí-la, às vezes, com fantasias e máscaras de comunhão perfeita e amor eterno.
O amor verdadeiro é um encontro entre duas solidões que se dão as mãos. E o nosso problema é achar que de algum modo, alguém tem que nos resgatar de forma absoluta da nossa. O vácuo, o vazio é aquilo que nos faz ir adiante, continuar em busca: do amor, de um deus qualquer, de uma felicidade possível. Neste sentido, só o ser humano é capaz de solidão: a sempre, maior ou menor discrepância entre o que se tem e o tanto que se almeja.
Talvez isto sejam só divagações tolas numa quase madrugada de Segunda-feira. Talvez não. De qualquer modo, é ótimo poder escrevê-las livremente por aqui enquanto o corpo cansado pede repouso e a mente, agora em paz, num instante, lhe vai obedecer. Boa-noite, queridos.
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