Enchova, ostras, caviar, lardo, alcaçuz, chili, curry, chocolate, coxas de rã, carne de avestruz, Catuaba. corno de rinoceronte, esperma de cervo, música, misticismo e pedras preciosas. .. o que todos estes elementos tem em comum? São afrodisíacos, segundo Mr. Google.
Na verdade não sei se curry ou corno de rinoceronte despertariam meu desejo. Agora conheço um elemento que é um dos mais poderosos, que vence aparência, barba e barriguinha sexy (que eu adoro): Inteligência.
É claro que ela só não basta. O filho de cruz-credo com deus-me-livre pode até ganhar o Nobel que não rola. Mas devo confessar que inteligência já me fez ficar encantado, e excitado por gente que, em outras circunstâncias, não me chamaria a atenção mesmo.
Eu sou um típico caso de estudante com tesão em professores, desde a minha oitava séria (que agora não sei como se chama). Edimilson, de geografia foi o primeiro. E de lá pra cá uma leva de homens que abriam a boca me provocavam quase um orgasmo com suas mentes brilhantes e teorias certeiras. Até hoje, até hoje...
E isto pode ser muito ruim! Porque inteligência, e não tô falando só de erudição, muito menos de pedantismo intelectual (argh!) é um artigo raro no mercado. Deve ser mais difícil de achar do que o citado esperma de cervo. E aí quando aparece alguém que preenche minimamente esta condição te dá uma alegria danada.
Atualmente estou me correspondendo num estilo quase epistolar com um perfil no Manhunt que tem o nome de um personagem do “Em busca do tempo perdido” de Proust. O meu perfil, por sua vez, é de um dos personagens da minha obra favorita de Clarice Lispector. Parecemos assim, literariamente, destinados um ao outro e deixamos scraps como se fossem escritos em papel de carta selados em envelopes perfumados. Amanhã vamos nos encontrar para um café. E ver se o encanto literário se transforma em feromônios na vida real ou se tudo isto não passa de uma obra de literatura fantástica, incrível, mas irreal. De qualquer modo como trocar isto por alguém que te manda: “Bora tc, leke?”.... não dá... não dá...
Por favor querid@s, não pense que se trate de alguma situação egoísta na qual eu só me relacionasse com meus pares. Isto significaria que me sei também muito culto e isto, de uma forma sedutora, que afinal é o que admiro nos outros. Sou inteligente, mas de uma forma muito acadêmica incapaz de destilar conhecimento e fazer suspirar alguém enquanto morde os lábios e tem calafrios. Ainda não aprendi isso, um dia, talvez. Também não é o caso de dizer que só rola nestas condições. Não sejamos tão exclusivistas, reconheço aqui e ali a importância de um cafuçu para alegrar o dia.
P.S. Post dedicado à vaca Jersey que me tem provocado admiração com seus posts elegantemente irônicos e arrepios com seus 2 últimos comments ao meu blog... rsrs
quinta-feira, 22 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
O Vácuo
Semana louca de segunda retrasada até ontem. Uma destas famigeradas semanas de provas que, periodicamente, testam ao limite sua resistência intelectual, psicológica e o quanto seu corpo agüenta sentado horas a fio em frente a um livro. Tudo bem, deveria estar acostumado, afinal, já na alfabetização a gente faz prova de “b + a = ba” (faz?)
O problema é quando a facul não é, nem de longe, sua única obrigação na vida, como nos tempos da alfabetização. Eu dou aulas à noite, e obviamente, tenho que prepará-las, além disto, ufa!,.. pausa pra recobrar o fôlego, trabalho numa editora. Tem semanas lá que são absolutamente tranqüilas, mas há uma no mês que é o inferno: fechamento da revista: prazo, correria e estresse. O que acontece quando numa porra duma conjunção astral as semanas mais estressantes da sua vida no trabalho e na facul acontecem juntas? Reza-se pra sobreviver.
E... I survived! Hoje é o primeiro dia depois do furacão. E eu to aqui, no vácuo... meio que lagartixando entre a cama, o computador e uma tardia caixa de bombons da páscoa. Começou já bem ontem, com uma noite regada a deliciosas companhias e vinhos.
À tarde compromissos... estéticos! Rsrs.. cortar a juba, manter separado o que Deus uniu (as sobrancelhas) e, aí sim, à noite, dar minhas aulas.
Eu sou um cara agitado, gosto do ritmo intenso da vida, muita calmaria me causa tédio e dias profundamente parados, enjôo. Mas o vácuo de uma manhã, um dia, ou poucas horas pra se fazer nada, é fundamental. Faz-nos lembrar que para além do quanto se trabalha e produz, vale a pena também celebrar o que se é, acordar sem susto, tomar banho sem pressa, ter como obrigação única decidir o que você quer, de verdade, fazer, é um luxo que todo mundo tem direito, pelo menos, de vez em quando.
O problema é quando a facul não é, nem de longe, sua única obrigação na vida, como nos tempos da alfabetização. Eu dou aulas à noite, e obviamente, tenho que prepará-las, além disto, ufa!,.. pausa pra recobrar o fôlego, trabalho numa editora. Tem semanas lá que são absolutamente tranqüilas, mas há uma no mês que é o inferno: fechamento da revista: prazo, correria e estresse. O que acontece quando numa porra duma conjunção astral as semanas mais estressantes da sua vida no trabalho e na facul acontecem juntas? Reza-se pra sobreviver.
E... I survived! Hoje é o primeiro dia depois do furacão. E eu to aqui, no vácuo... meio que lagartixando entre a cama, o computador e uma tardia caixa de bombons da páscoa. Começou já bem ontem, com uma noite regada a deliciosas companhias e vinhos.
À tarde compromissos... estéticos! Rsrs.. cortar a juba, manter separado o que Deus uniu (as sobrancelhas) e, aí sim, à noite, dar minhas aulas.
Eu sou um cara agitado, gosto do ritmo intenso da vida, muita calmaria me causa tédio e dias profundamente parados, enjôo. Mas o vácuo de uma manhã, um dia, ou poucas horas pra se fazer nada, é fundamental. Faz-nos lembrar que para além do quanto se trabalha e produz, vale a pena também celebrar o que se é, acordar sem susto, tomar banho sem pressa, ter como obrigação única decidir o que você quer, de verdade, fazer, é um luxo que todo mundo tem direito, pelo menos, de vez em quando.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
A Menina
Ela tem grandes olhos negros que reluzem ao se interessar por qualquer coisa: pessoa, bicho ou livro. O único branco em toda sua harmoniosa face é este do entorno às pupilas. A pele acetinada, de um moreno das índias delata a origem de sua família, lá do outro lado do mundo. No entanto, apesar de tudo, ela é a encarnação da melhor carioquice, deste espírito que conjuga força, garra com um jeito leve e solto de agarrar a vida.
As minhas primeiras impressões foram que ali estava uma garota que não seguia modas, pensava eu que ela mesma fabricava habilmente seus penduricalhos e utensílios tanto que era a sua cara, seu jeito, uma emanação objetiva dela própria. Inclusive a garrafinha térmica de café que partilhava nas aulas, cheio do líquido escuro como suas pupilas, fumegante e quente para todos os nele interessados. Foi assim que a conheci e imediatamente senti por ela um fascínio que retrai, algo que te faz fugir para algum lugar em você mesmo para contemplar, admirar e, descoberto o segredo de ser tanto ela mesma, come-lo, devorar antropofagicamente o que brilha por toda a menina.
Nos dois semestres seguintes nos perdemos. Encontrava-a em algum corredor, ambos correndo, sem café, sem tempo, sem intimidade para dali marcar qualquer coisa. Até que neste período voltamos a estudar juntos: Economia e Política Contemporânea. E foi em função de uma prova da primeira que fui convidado junto com um grupo para uma tarde de estudos em sua casa.
Bia, este é seu nome, mora num amplo apartamento, quase vazio de móveis, o que combina com ela. Amplos espaços, grandes vãos por quais se circula fácil. O que há é uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara emoldurada pelo melhor do Rio: O Pão-de-Açúcar. Achei sinceramente que uma garota tão genuinamente carioca merecia, de verdade, uma vista desta. Ela sabe ver, pode-se colocar de frente à sua janela de forma absoluta e veraz.
Estudamos fervorosamente “elasticidade-preço cruzada da demanada”, “Teoria geral da firma” e outros conceitos econômicos representados por hieróglifos que só um Indiana Jones poderia interpretar plenamente. Levei para Bia um café, bom, caro, que inundou minha mochila de um aroma fantástico. Descobri então que, além do entorno à pupila, os dentes são também branquíssimos e o sorriso uma celebração.
A tarde foi caindo sobre a baía, o filé mignon da semana, sábado a noite, se aproximando e quando o último cara ia saindo, ela me disse pra ficar, se eu não queria mais uma cerveja. Eu fiquei e o “mais uma” se transformou na maior quantidade de cervejas armazenadas e devidamente bebidas que já vi. Seis horas e meia depois, havíamos falado sobre tudo. Eu a conhecia para além dos lindos véus com que desfila por aí e ela sabia de mim como poucos. Saímos encantados um com o outro, daquele tipo de encantamento declarado e alimentado por torpedos no dia seguinte.
Eu, da solidez intransponível da minha adoração pelo sexo masculino, pensei que, definitivamente Bia é alguém para se amar louca e decididamente. E fiquei feliz com minha sorte de encontrar alguém nestes dias áridos em que vivemos, tão de dentro pra fora. Marcamos mais cerveja no feriado, Desta vez, eu vou repor seu magnífico estoque.
P.S. Queridos, estou mega-ocupado até Segunda, por isto o sumiço deste e de outros blogs. Mas eu volto, Bjs!
As minhas primeiras impressões foram que ali estava uma garota que não seguia modas, pensava eu que ela mesma fabricava habilmente seus penduricalhos e utensílios tanto que era a sua cara, seu jeito, uma emanação objetiva dela própria. Inclusive a garrafinha térmica de café que partilhava nas aulas, cheio do líquido escuro como suas pupilas, fumegante e quente para todos os nele interessados. Foi assim que a conheci e imediatamente senti por ela um fascínio que retrai, algo que te faz fugir para algum lugar em você mesmo para contemplar, admirar e, descoberto o segredo de ser tanto ela mesma, come-lo, devorar antropofagicamente o que brilha por toda a menina.
Nos dois semestres seguintes nos perdemos. Encontrava-a em algum corredor, ambos correndo, sem café, sem tempo, sem intimidade para dali marcar qualquer coisa. Até que neste período voltamos a estudar juntos: Economia e Política Contemporânea. E foi em função de uma prova da primeira que fui convidado junto com um grupo para uma tarde de estudos em sua casa.
Bia, este é seu nome, mora num amplo apartamento, quase vazio de móveis, o que combina com ela. Amplos espaços, grandes vãos por quais se circula fácil. O que há é uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara emoldurada pelo melhor do Rio: O Pão-de-Açúcar. Achei sinceramente que uma garota tão genuinamente carioca merecia, de verdade, uma vista desta. Ela sabe ver, pode-se colocar de frente à sua janela de forma absoluta e veraz.
Estudamos fervorosamente “elasticidade-preço cruzada da demanada”, “Teoria geral da firma” e outros conceitos econômicos representados por hieróglifos que só um Indiana Jones poderia interpretar plenamente. Levei para Bia um café, bom, caro, que inundou minha mochila de um aroma fantástico. Descobri então que, além do entorno à pupila, os dentes são também branquíssimos e o sorriso uma celebração.
A tarde foi caindo sobre a baía, o filé mignon da semana, sábado a noite, se aproximando e quando o último cara ia saindo, ela me disse pra ficar, se eu não queria mais uma cerveja. Eu fiquei e o “mais uma” se transformou na maior quantidade de cervejas armazenadas e devidamente bebidas que já vi. Seis horas e meia depois, havíamos falado sobre tudo. Eu a conhecia para além dos lindos véus com que desfila por aí e ela sabia de mim como poucos. Saímos encantados um com o outro, daquele tipo de encantamento declarado e alimentado por torpedos no dia seguinte.
Eu, da solidez intransponível da minha adoração pelo sexo masculino, pensei que, definitivamente Bia é alguém para se amar louca e decididamente. E fiquei feliz com minha sorte de encontrar alguém nestes dias áridos em que vivemos, tão de dentro pra fora. Marcamos mais cerveja no feriado, Desta vez, eu vou repor seu magnífico estoque.
P.S. Queridos, estou mega-ocupado até Segunda, por isto o sumiço deste e de outros blogs. Mas eu volto, Bjs!
sábado, 10 de abril de 2010
O tal jogo de esconde-esconde
Há algum tempo atrás, durante a vigência do meu período ultra-romântico, eu pensava que duas pessoas se conheciam e que suas vidas, gostos e desejos se encaixavam como partes complementares de uma mesma engrenagem que deslizavam uma para a outra sob o efeito do óleo do amor (Não, nenhuma alusão ao KY please...)
Mas a verdade é que esta coisa toda afetiva é uma espécie de jogo: pode ser esconde-esconde, xadrez, no qual você calcula por antecipação várias jogadas do seu partner, ou um carteado qualquer cheio de coringas e blefes. Eu sempre prefiro jogar “Verdade ou conseqüência”, o que não é nada esperto da minha parte.
A questão é que todos os (poucos) namoros verdadeiramente incríveis que tive até agora começaram de forma incalculada, inesperada e a marca de todos eles foi a fluidez com que tudo foi se realizando. O desejo de estar junto sendo alimentado por mais desejo, horas longas passadas em minutos só por causa da companhia do outro, e uma experiência de que, apesar de todos os reveses que implica conviver intimamente com outro ser humano, valia a pena. Esta sensação eu não tenho há um bom tempo. E, apesar de parecer o contrário, não estou reclamando. Só não quero jogar, emitir sinais que gritam como frases em outdoor algo e no minuto seguinte, olhar pro cara como se ele fosse um estranho.
Uma coisa tenho aprendido: me resguardar. Pra que te conheçam, e logicamente, para você conhecer o outro, leva tempo. Existem mil expectativas iniciais que não se referem a você mesmo, mas ao papel que o outro espera que desempenhe alguém que entre na vida dele neste escaninho do “peguete”, “ficante”, “namorado”, ou “príncipe-encantado-metade-da-laranja-Uhuuu, achei!”. Até que ele te conheça de verdade, você é algo como uma projeção de tudo o que ele espera, deseja, teme, ou adora. Tem muito pouco a ver com o que você é. Por isto, seria injusto deixar que uma recusa, uma desistência, o popular pé-na-bunda passe a impressão de que diz algo verdadeiro sobre quem você é neste mundo complexo dos relacionamentos.
Mas a verdade é que esta coisa toda afetiva é uma espécie de jogo: pode ser esconde-esconde, xadrez, no qual você calcula por antecipação várias jogadas do seu partner, ou um carteado qualquer cheio de coringas e blefes. Eu sempre prefiro jogar “Verdade ou conseqüência”, o que não é nada esperto da minha parte.
A questão é que todos os (poucos) namoros verdadeiramente incríveis que tive até agora começaram de forma incalculada, inesperada e a marca de todos eles foi a fluidez com que tudo foi se realizando. O desejo de estar junto sendo alimentado por mais desejo, horas longas passadas em minutos só por causa da companhia do outro, e uma experiência de que, apesar de todos os reveses que implica conviver intimamente com outro ser humano, valia a pena. Esta sensação eu não tenho há um bom tempo. E, apesar de parecer o contrário, não estou reclamando. Só não quero jogar, emitir sinais que gritam como frases em outdoor algo e no minuto seguinte, olhar pro cara como se ele fosse um estranho.
Uma coisa tenho aprendido: me resguardar. Pra que te conheçam, e logicamente, para você conhecer o outro, leva tempo. Existem mil expectativas iniciais que não se referem a você mesmo, mas ao papel que o outro espera que desempenhe alguém que entre na vida dele neste escaninho do “peguete”, “ficante”, “namorado”, ou “príncipe-encantado-metade-da-laranja-Uhuuu, achei!”. Até que ele te conheça de verdade, você é algo como uma projeção de tudo o que ele espera, deseja, teme, ou adora. Tem muito pouco a ver com o que você é. Por isto, seria injusto deixar que uma recusa, uma desistência, o popular pé-na-bunda passe a impressão de que diz algo verdadeiro sobre quem você é neste mundo complexo dos relacionamentos.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Enquanto isto em meio ao dilúvio...
Pela manhã, uma amiga te liga e você fica sabendo que participou do fim do mundo e não sabia. Se Deus já tinha tentado acabar com tudo por meio do dilúvio, ele quase conseguiu desta vez. Ao invés de passar programas sofríveis para donas de casas entediadas e crianças hiperativas, a tv só mostra imagens do Rio: lama, água, gente desesperada... 2012 perde. As autoridades alertam para que só se saia de casa se for imprescindível. Pode voltar a chover forte, a previsão é esta.
Já disposto a comer os últimos chocolates da Páscoa, usar todas as folhas de revistas e jornal para fazer barquinhos e ter uma bucólica tarde em casa, você se lembra que tem um compromisso, importantíssimo!
Munido do seu melhor tênis de cano alto, capa e guarda-chuva vagabundo, vi vários iguais abandonados no caos que viraram as ruas, você sai. Nem cinco minutos depois a chuva cai forte. Mas você chega vivo, são, salvo e bem molhado ao seu destino para então descobrir que o salão no qual Eliane iria manter as suas sobrancelhas devidamente separadas, como faz há anos, não estava. O salão estava fechado. Absurdo? O que faz um cara gay com tratamentos estéticos em meio ao dilúvio? Ora, sai de casa e vai fazê-los!
Como iria dar aula depois, segui direto para o bairro da Tijuca. Só quem viu filmes apocalípticos de Hollywood a infância toda pode entender no que se transformou o Rio. A cidade vazia, suja, carros abandonados na contramão, por cima de canteiros e calçadas. É óbvio que cheguei no curso e nenhum aluno foi. Absurdo? O que faz um cara responsável tentando manter a rotina em meio aos caos?
Já disposto a comer os últimos chocolates da Páscoa, usar todas as folhas de revistas e jornal para fazer barquinhos e ter uma bucólica tarde em casa, você se lembra que tem um compromisso, importantíssimo!
Munido do seu melhor tênis de cano alto, capa e guarda-chuva vagabundo, vi vários iguais abandonados no caos que viraram as ruas, você sai. Nem cinco minutos depois a chuva cai forte. Mas você chega vivo, são, salvo e bem molhado ao seu destino para então descobrir que o salão no qual Eliane iria manter as suas sobrancelhas devidamente separadas, como faz há anos, não estava. O salão estava fechado. Absurdo? O que faz um cara gay com tratamentos estéticos em meio ao dilúvio? Ora, sai de casa e vai fazê-los!
Como iria dar aula depois, segui direto para o bairro da Tijuca. Só quem viu filmes apocalípticos de Hollywood a infância toda pode entender no que se transformou o Rio. A cidade vazia, suja, carros abandonados na contramão, por cima de canteiros e calçadas. É óbvio que cheguei no curso e nenhum aluno foi. Absurdo? O que faz um cara responsável tentando manter a rotina em meio aos caos?
domingo, 4 de abril de 2010
Neurótico, eu?
Então, a coisa funciona mais ou menos assim: Você sente vergonha, ou medo, acha-se frágil e não amado o suficiente, e para se proteger da dor, empurra esta experiência original desagradável para um lugar fundo, tão fundo em você que nem um proctologista laureado com um Nobel é capaz de encontrar.
Ao invés desta experiência você cria uma versão de você mesmo que tem como única função olhar a realidade de maneira incólume, distorcendo-a, criando uma ficção sobre si mesmo, há proteção, você parece ser inatingível.
Você passa a agir naquela área da sua vida, a partir desta ótica e acredita-se mesmo como esse ser fake, este ego band-aid, esta persona “deixa-eu-pôr-um-blush-aqui-pra-disfarçar”. E todo este processo passa bem longe do seu desconfiômetro, até que uma coisinha de nada começa a te incomodar, uma vez, duas, de novo e você, desconfortável suspeita que aquela bobeira está se tornando um padrão. O que você faz? Procura uma terapia e na primeira sessão, circunscreve cautelosamente só aquilo que te trouxe ali, o incômodo, você tem a certeza que rapidinho tudo se resolve.
E percebe que aquilo tão bobinho, tão pequenininho, mas a ponto de te pôr em movimento, de te fazer procurar um especialista, é só o salto inicial, o pulo do trampolim, lá em baixo estão as águas mais profundas.
É neste mergulho que se percebe o quanto se é mais vasto, largo e interessante do que supunha, o quanto seus medos e carências não são você substancialmente, apesar de moldarem sua vida de uma forma muito mais decisiva do que se está disposto a admitir.
É incômodo porque mesmo a distorção da realidade que a gente cria para se defender traz equilíbrio e funciona até certo ponto e perder esta bengala, aprender a pôr os pés no chão e dar passos cuidadosos e cheios de uma cautela quase medrosa não é fácil. Mas sentir por entre os pés o solo fofo e a areia morna, nos dá a certeza de que o caminho não é nem tão pedregoso nem frio como supúnhamos na nossa mais inadmitida covardia.
P.S. Depois de me explicar esta questão da distorção da realidade que cria um modo de agir viciado e uma falsa visão sobre si mesmo, minha terapeuta resumiu tudo isto numa palavra: “Neurose”. Olhos arregalados, lhe fitei surpreso: “Eu sou neurótico, então?” e ela como quem dissesse a coisa mais trivial do mundo, ajeitou o cabelo e sorriu: “Como quase todos somos”.
Ao invés desta experiência você cria uma versão de você mesmo que tem como única função olhar a realidade de maneira incólume, distorcendo-a, criando uma ficção sobre si mesmo, há proteção, você parece ser inatingível.
Você passa a agir naquela área da sua vida, a partir desta ótica e acredita-se mesmo como esse ser fake, este ego band-aid, esta persona “deixa-eu-pôr-um-blush-aqui-pra-disfarçar”. E todo este processo passa bem longe do seu desconfiômetro, até que uma coisinha de nada começa a te incomodar, uma vez, duas, de novo e você, desconfortável suspeita que aquela bobeira está se tornando um padrão. O que você faz? Procura uma terapia e na primeira sessão, circunscreve cautelosamente só aquilo que te trouxe ali, o incômodo, você tem a certeza que rapidinho tudo se resolve.
E percebe que aquilo tão bobinho, tão pequenininho, mas a ponto de te pôr em movimento, de te fazer procurar um especialista, é só o salto inicial, o pulo do trampolim, lá em baixo estão as águas mais profundas.
É neste mergulho que se percebe o quanto se é mais vasto, largo e interessante do que supunha, o quanto seus medos e carências não são você substancialmente, apesar de moldarem sua vida de uma forma muito mais decisiva do que se está disposto a admitir.
É incômodo porque mesmo a distorção da realidade que a gente cria para se defender traz equilíbrio e funciona até certo ponto e perder esta bengala, aprender a pôr os pés no chão e dar passos cuidadosos e cheios de uma cautela quase medrosa não é fácil. Mas sentir por entre os pés o solo fofo e a areia morna, nos dá a certeza de que o caminho não é nem tão pedregoso nem frio como supúnhamos na nossa mais inadmitida covardia.
P.S. Depois de me explicar esta questão da distorção da realidade que cria um modo de agir viciado e uma falsa visão sobre si mesmo, minha terapeuta resumiu tudo isto numa palavra: “Neurose”. Olhos arregalados, lhe fitei surpreso: “Eu sou neurótico, então?” e ela como quem dissesse a coisa mais trivial do mundo, ajeitou o cabelo e sorriu: “Como quase todos somos”.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Dolce far niente
Tô aqui... mo meio do feriadão, numa praia distante 5 horas do meu amado Rio de Janeiro: Itamambuca. Fica dentro de uma reserva ambiental, com pouquíssimas casas e uma praia deslumbrante que parece saída de algum lugar pré-1500. A sensação que tenho quando venho pra cá é que à primeira pisada na areia, avistarei índios dançando entorno à uma fogueira.
Minha tia mora aqui, numa casa de sonhos, com uma estante cheia de livros e Lps, e trepadeiras subindo pela cerca de madeira do quintal. Ouve-se Dalva de Oliveira ou Edith Piaf, toma-se vinho tinto ao entardecer e se tem a absoluta licença de não fazer nada, jogado numa rede qualquer aos últimos raios de sol, que como todo o resto, preguiçosamente se põe.
Nessas horas eu penso no meu dia-a-dia, acordar 5h15, dormir sabe-se lá quando; faculdade de manhã, editora à tarde e as aulas de noite. E tudo me parece só uma realidade paralela, uma viagem de ácido, a esquizofrenia de qualquer um, menos a minha.
Eu gosto da minha vida, mesmo da correria. Sou um cara urbano, me alimento de luzes, sons e asfalto. Mais de uma semana em qualquer paraíso idílico e ao canto de pássaros, me mataria de tédio. Mas como injetar um pouquinho de verde calma na cinzenta correria da minha vida? Uma taça de vinho ao chegar do trabalho? Mais caminhadas no calçadão e menos séries de tv?
Gosto da minha rotina corrida e produtiva, mas quero que a "paz de céus azuis" não esteje confinada a feriadões a 5 horas de estrada.
Uma samambaia no quarto?
Feliz Páscoa!!
Minha tia mora aqui, numa casa de sonhos, com uma estante cheia de livros e Lps, e trepadeiras subindo pela cerca de madeira do quintal. Ouve-se Dalva de Oliveira ou Edith Piaf, toma-se vinho tinto ao entardecer e se tem a absoluta licença de não fazer nada, jogado numa rede qualquer aos últimos raios de sol, que como todo o resto, preguiçosamente se põe.
Nessas horas eu penso no meu dia-a-dia, acordar 5h15, dormir sabe-se lá quando; faculdade de manhã, editora à tarde e as aulas de noite. E tudo me parece só uma realidade paralela, uma viagem de ácido, a esquizofrenia de qualquer um, menos a minha.
Eu gosto da minha vida, mesmo da correria. Sou um cara urbano, me alimento de luzes, sons e asfalto. Mais de uma semana em qualquer paraíso idílico e ao canto de pássaros, me mataria de tédio. Mas como injetar um pouquinho de verde calma na cinzenta correria da minha vida? Uma taça de vinho ao chegar do trabalho? Mais caminhadas no calçadão e menos séries de tv?
Gosto da minha rotina corrida e produtiva, mas quero que a "paz de céus azuis" não esteje confinada a feriadões a 5 horas de estrada.
Uma samambaia no quarto?
Feliz Páscoa!!
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