sábado, 27 de junho de 2009

Alerta: PERIGO!

Pesquisa recente aponta que, daqui a algumas décadas, o número de evangélicos será maior do que o de católicos no Brasil. As igrejas que crescem não são as da época da Reforma Protestante, com um sólido cabedal teológico e uma tradição rica e inteligente, mas as chamadas seitas neo-pentecostais. Estas agremiações religiosas tem, entre outras características em comum, a leitura fundamentalista da Bíblia feita por pastores e fiéis analfabetos funcionais, já que este tipo de religião cresce nos meios mais pobres da sociedade. Mesmo no catolicismo, o movimento que mais ganha adeptos é a chamada Renovação Carismática Católica, de forte apelo emocional e moral rígida, a versão romana do neo-pentecostalismo.

Há dois sábados que ligo a tv e me deparo, em pleno horário nobre, com nada menos do que 3 canais abertos com programação religiosa. 2 canais transmitindo simultaneamente programas do mesmo pastor, R.R. Soares, primo do Edir Macedo e fundador da uma igreja tão radicalmente ignorante quanto à Universal do Reino de Deus. Hoje na internet vi um vídeo de um exorcismo gay. Este era nos E.U.A. mas não tenho dúvidas de que a prática se repete aos montes pelo nosso país. Me senti ultrajado vendo o cara estrebuchar no chão enquanto pastores davam ordens ao demônio da homossexualidade. Há um momento em que a pastora pisa na pessoa.

É sabido que qualquer projeto de lei destinado à cidadania gay esbarra logo na bancada evangélica, fortemente unida, e nos católicos, que nesta hora se unem. Foda-se que sejamos um país laico! Foda-se o artigo quinto da Constituição e o primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos!

E o problema é que, ao contrário do que parece à primeira vista, o cristianismo não implica necessariamente numa postura condenatória da Diversidade sexual. Há textos proibitivos na Bíblia sobre este assunto dentro de um contexto cultural específico, assim como há também a proibição de se comer crustáceos ou de que a mulher tome a palavra em reuniões! Pelo contrário a atitude de Jesus foi sempre de relativizar a religião instituída quando esta servia pra marginalizar, pôr fardos, discriminar as pessoas.

O péssimo nível de educação do nosso povo, a proliferação de um cristianismo fundamentalista, a quase nenhuma participação política (não digo necessariamente militante) de gays, tudo isto, me parece ingredientes de uma receita social explosiva que está sendo fervida no caldeirão social brasileiro e do qual nós ainda provaremos o amargo gosto. Será que estou exagerando?

domingo, 21 de junho de 2009

Quando o amor acontece

Então você ouve uma metálica voz ressoando em meio à penumbra do seu quarto: “Eu quero me apaixonar, namorar, mas não encontro ninguém que queira algo sério” e a voz se repete, se repete, até que você dá um tapa no despertador. Durante o banho no rádio ligado, o pop, rock, axé, tem a mesma letra “Eu quero me apaixonar, namorar, mas não encontro ninguém que queira algo sério”. Pegando o metrô a atendente faz cara de “Bom dia” ao receber seu dinheiro, mas, diz “Eu quero me apaixonar, namorar, mas não encontro ninguém que queira algo sério”...

Este pesadelo virtual bem que poderia ter povoado meu sono nos últimos tempos. Não agüento mais ouvir da boca de gays, lésbicas, héteros, periquitos e salamandras o mantra. E imediatamente, como reação a isto, eu parei de dizê-lo também. Não só porque é um saco, mas porque eu passei a desconfiar da sinceridade deste desejo meu e de todos os adeptos do refrão.
Tenho pensado o quanto, efetivamente, a minha vida, minhas prioridades, minha energia está aberta, receptiva a alguém como um namorado.
Eu estou descobrindo, cada vez mais o cara legal que eu sou, curtindo a minha companhia. Organizando a minha vida, em todas as áreas de uma forma muito mais livre e autônoma. E desde que você respeite quem chega, ele nunca ocupará exatamente o espaço delimitado por você a ele. Quem chega nunca terá a dimensão, altura, profundidade do recipiente sobre o qual você escreveu com sua melhor letra “Namorado”. E se é exatamente na proporção que você escolheu, se ele se encaixa direitinho como aquela peça faltando no quebra-cabeça da sua vida, desconfie. Preencher o espaço vazio, ser a metade que completa, o sentido que faltava não faz dele o homem da sua vida, só revela que há algo de muito grave com sua auto-estima.

O amor de verdade desestrutura, é exigente, desarruma comodidades, balança, te faz saltar do sólido chão para a instabilidade dos encontros e desencontros. Por mais maduros que estejamos para ele, sempre se tem que abrir mão de um falso, mas acreditado, controle da própria vida, para depositar um pouco, ou muito, da própria segurança no outro. E isto dá muito medo, porque tudo o que queremos é domar a instabilidade da vida, criar mecanismos de segurança, nivelar caminhos, ser onipotente na própria existência. Mas aí vem o amor e coloca algo fascinante e perigoso no centro da sua vida: Um outro alguém, aquele além de você mesmo.
Eu tenho pensado muito, se eu quero, se eu posso e se sei, de fato, amar. E tenho tido cuidado com o que digo sobre isto por aí. Para não sinalizar errado para os outros, não cativar sentimentos que não possa ou queira manter e, principalmente, para perceber, de fato, quando o amor, e não qualquer outra coisa a que se dê este nome, acontece

sábado, 20 de junho de 2009

Queer as Folk - The End

Então é isso, queridos, após uma longa jornada cheguei ao final das 5 temporadas de Queer as folk. Devo dizer que as únicas que realmente te prendem a atenção com tramas interessantes e um ritmo ágil são as 2 primeiras.

Na última temporada há algumas cenas memoráveis, especialmente em relação à tragédia que se abate na comunidade gay de Pittsburgh. Mas mesmo este acontecimento fica estranho na trama. Durante alguns episódios ele parece redefinir um monte de situações, especialmente em relação ao relacionamento de Brian e Justin, mas então, você descobre, no último episódio que ele não foi tão importante assim para as personagens, como até então o seriado fazia questão de insinuar.

É interessante perceber também o clima geral dos E.U.A. quanto à questão da cidadania gay na época do final do seriado. Há referências explícitas à perseguição política da casa branca na era Bush e uma atmosfera de desânimo no ar, que levou o casal Mel e Lindsey a se mudar para o Canadá, por exemplo. Seria muito legal se a gravação da últma temporada tivesse coincidido com a vitória do Obama e a sua política totalmente gay friendly.

Eu definitivamente não fui pego pelo casal principal. Brian apesar de algumas nuances interessantes é alguém que eu classificaria como um chato egocêntrico e Justin é legal, mas menininho demais, loirinho demais, não faz nada o meu tipo. Honra seja feita aos homens de Michael, os dois maridos da personagem ao longo da trama são sem dúvida os mais interessantes exemplares da espécie masculina em todo seriado. E, além disso, o casamento-fofo-toda-a-vida do Michael com Ben mexe com alguma coisa de muito romântica e idealizada que ainda resiste aos áridos tempos atuais e segue, vez por outra, batendo no meu velho peito.

Neste fim de semana, começo nova jornada: Brothers and Sisters. Bj!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Carregá-los para que?

Troquei a série na academia esta semana. Na verdade, pode-se dizer que é a minha primeira, já que a anterior, segundo o professor, era só para fortalecer as articulações e agora sim, começamos o trabalho muscular.

Escolhendo a quantidade de pesinhos em cada aparelho, pensei quanto peso inútil a gente não carrega na vida! As expectativas dos outros sobre nós, as lutas com qualquer coisa nossa que destoe do que se espera comumente de alguém, a forma como nos relacionamos. Quanto tempo e energia desperdiçados como se tivéssemos toda uma eternidade para reverter a situação. E a questão é que, de maneira inversa à ginástica, quanto mais peso inútil se carrega na vida, mais fraco, debilitado, murcho, a gente se torna.

Só que a gente só larga as cargas inúteis quando percebe que elas não são nossas e isto exige uma coragem fundamental: a de enfrentar-se. Olhar para si mesmo. E quando nós fazemos isto? No meio da correria, na luta para conseguir pagar as contas, alcançar status, ser alguém que nós nem escolhemos, mas, que foi determinado de fora de nós, que é aquilo que todos devem aspirar a ser. Muitas vezes a gente só olha pra dentro depois de uma porrada da vida, uma ruptura, uma perda. Fazemos isto juntando os caquinhos, tentando calar a dor, procurando forças. Não haveria outra forma? Num mundo que nos cobra inúmeras ações em diversas áreas, quem é capaz de parar e refletir?

Eu não quero carregar mais pesos inúteis. Não quero deixar que outros, seja quem for, digam o meu lugar, o que eu sou, o que me cabe. E desejo, na medida do possível evitar também tanto sofrimento gratuito, sem necessidade, que grassa por aí. Por isto quero ser mais amigo, estudar mais na sociologia a questão da diversidade sexual, continuar participando do Diversidade Católica e, quiçá, levar um pouco de leveza, alegria e cumplicidade amando um homem que se deixe iluminar e ilumine a minha vida. É isso. Pesos? Só na academia e alguns poucos inevitáveis na vida.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Vapores

Fazia tempos que não ia lá. Foi com um misto de serena alegria e grande excitação que cruzei a porta de treliça. Lá dentro várias espécimes de machos desfilavam em sua toalhas brancas, imaculadas.
Parece que o tempo fez mesmo o efeito desejado. Durante 2 ou 3 anos frequentei quase que semanalmente saunas. Eram, então, um mundo novo que se descortinava pra mim. Eu tinha recentemente deixado a vida religiosa e o que antes era pecado, penitência e culpa, agora era só vapores, suores e orifícios. Tudo muito à mão, alcançável por um olhar, realizável ao deixar cair uma toalha. É sim uma animalidade, mas para mim que sempre viveu numa espécie de névoa espiritual, nublando meus desejos e vontades, aqueles vapores baratos tinham o gosto de uma encarnação, um verdadeiro reconcilar-me com hormônios, desejos e secreções. Afinal não somos animais?
Mas, como tudo que é over ou cansa ou mata, fazia muito tempo que não ia lá. E ontem ao invés de me lançar em recôndidos escuros, em cabines apertadas, conversei a tarde inteira, bebi cerveja, beijei uma boca que prometeu me ligar hoje (hum...) e deixei o resto para a minha casa, minha cama, meus lençois tão imaculados quanto as toalhas de lá. Porém mais macios e aconchegantes. E isto não quer dizer que eu cresci, amadureci, melhorei..só quer dizer que depois que você compra uma queen size, você se torna muito mais exigente.. rs

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Caio e outros deuses

A frase que está logo abaixo do novo título do blog, é do maravilhoso Caio F. Abreu. Ele faz parte, para mim, de uma turma de autores sagrados. Aqueles que você lê os mesmos textos, em diferentes situações e descobre sempre outros encantos e possbilidades, se descobre sempre neles.
Dos muitos altares que tenho em minha memória para tantos que com palavras conseguiram arrancar de mim algo como um êxtase, um frêmito de verdade e dor, alegria e beleza, sem dúvida nenhuma, Caio e Clarice Lispector são os dois maiores. Por isso, em mim, suas piras estão sempre acesas, o incenso queima abundante e as flores nunca murcham, porque são renovadas a cada página, regadas pela quase lágrima que de um soluço, sobe até precipitar-se em direção ao papel, onde impresso está ela, a palavra perfeita, plena, acabada; razão de tudo. Com vocês um pouco de Caio

“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"

"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."["Os sobreviventes" in Morangos mofados]

"E para que não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço?"

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." (Cartas)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Remniscências... Amorosas (?)

O estudante de arquitetura (FINAL)

Saímos pra um dos programas preferidos do meu quase-namorado: comer. O outro era ir às festas dos ursos. Ele não chegava a ser um, era, na classificação ursina algo aquém disto, mas do jeito que freqüentávamos rodízios de qualquer coisa, inclua aí uma experiência deplorável num rodízio de petiscos, logo, logo seria promovido.
Depois do rodízio, de pizza desta vez, fomos a “Imaginarium”, uma loja bem legal de produtos com design super arrojado. Ele precisava comprar um presente de amigo oculto, mas não gostou de nada, exceto de um porta-retrato móbile, muito caro para uma simples lembrancinha de natal.
Dia seguinte lá estava eu, de novo, na mesma loja, sozinho. Comprei o porta-retrato. Na hora de pagar pedi o embrulho de presente separado. A atendente me olhava e talvez para sanar uma dúvida do dia anterior, me perguntou:
- É pra dar pra sua mãe de Natal?
- Não. Pro meu namorado. Aquele que veio comigo ontem.
E na loja moderna de artigos com design arrojado, a mulher ficou com a cara de espanto mais conservadora que eu já tinha visto.
Mandei imprimir fotos nossas, daqueles quase 2 meses de relacionamento, as dispus cuidadosamente em cada posição do porta-retrato, empacotei-o e o deixei na mesinha de centro. Toda vez que passava pela sala, sorria, imaginando a reação do meu lindo. Faltavam 5 dias para o Natal.
Na véspera, dia 24 de Dezembro, depois de um sumiço de 3 dias, ele me disse que estava confuso e precisava ficar só. Chorei uma semana e depois, pedi a ele, que pelo menos, fosse pegar o presente que lhe tinha comprado.
Ele apareceu no primeiro dia do ano. E ficou constrangido quando abriu o pacote. Levou-me um CD horroroso, destes de coletâneas “The Best of”. Ao rasgar o embrulho, dei-me conta da situação toda. Instantes antes de abrir a porta, desde que, o porteiro anunciara sonolento seu nome, eu pensei em pedir que reconsiderasse, dizer-lhe que poderíamos achar um outro ritmo, encontrar uma outra forma. Suplicar-lhe que apenas me beijasse, ali naquela primeira tarde. Mas tudo o que fiz depois de abrir o pacote, foi dizer-lhe que então estava bem, as coisas eram assim mesmo. Que ele tivesse sorte no estágio, conseguisse a nota com aquele professor chato. Recomendações à sua mãe. Diga a seu pai que este ano o Brasileirão é do Flamengo e ninguém tasca. Antes da porta fechar, o beijo, quente e bom. E então, já sozinho, elas surgiram também quentes, as lágrimas, escorriam amargas pelo meu rosto: o choro final.

***
Queridos, assim encerramos a série “Reminiscências amorosas”, e para faze-lo em grande estilo o ponto final será uma citação da Diva (Ora! Como que Diva? Madonna, é claro...)

THERE’S NO LOVE, LIKE THE FUTURE LOVE