Então você ouve uma metálica voz ressoando em meio à penumbra do seu quarto: “Eu quero me apaixonar, namorar, mas não encontro ninguém que queira algo sério” e a voz se repete, se repete, até que você dá um tapa no despertador. Durante o banho no rádio ligado, o pop, rock, axé, tem a mesma letra “Eu quero me apaixonar, namorar, mas não encontro ninguém que queira algo sério”. Pegando o metrô a atendente faz cara de “Bom dia” ao receber seu dinheiro, mas, diz “Eu quero me apaixonar, namorar, mas não encontro ninguém que queira algo sério”...
Este pesadelo virtual bem que poderia ter povoado meu sono nos últimos tempos. Não agüento mais ouvir da boca de gays, lésbicas, héteros, periquitos e salamandras o mantra. E imediatamente, como reação a isto, eu parei de dizê-lo também. Não só porque é um saco, mas porque eu passei a desconfiar da sinceridade deste desejo meu e de todos os adeptos do refrão.
Tenho pensado o quanto, efetivamente, a minha vida, minhas prioridades, minha energia está aberta, receptiva a alguém como um namorado.
Eu estou descobrindo, cada vez mais o cara legal que eu sou, curtindo a minha companhia. Organizando a minha vida, em todas as áreas de uma forma muito mais livre e autônoma. E desde que você respeite quem chega, ele nunca ocupará exatamente o espaço delimitado por você a ele. Quem chega nunca terá a dimensão, altura, profundidade do recipiente sobre o qual você escreveu com sua melhor letra “Namorado”. E se é exatamente na proporção que você escolheu, se ele se encaixa direitinho como aquela peça faltando no quebra-cabeça da sua vida, desconfie. Preencher o espaço vazio, ser a metade que completa, o sentido que faltava não faz dele o homem da sua vida, só revela que há algo de muito grave com sua auto-estima.
O amor de verdade desestrutura, é exigente, desarruma comodidades, balança, te faz saltar do sólido chão para a instabilidade dos encontros e desencontros. Por mais maduros que estejamos para ele, sempre se tem que abrir mão de um falso, mas acreditado, controle da própria vida, para depositar um pouco, ou muito, da própria segurança no outro. E isto dá muito medo, porque tudo o que queremos é domar a instabilidade da vida, criar mecanismos de segurança, nivelar caminhos, ser onipotente na própria existência. Mas aí vem o amor e coloca algo fascinante e perigoso no centro da sua vida: Um outro alguém, aquele além de você mesmo.
Eu tenho pensado muito, se eu quero, se eu posso e se sei, de fato, amar. E tenho tido cuidado com o que digo sobre isto por aí. Para não sinalizar errado para os outros, não cativar sentimentos que não possa ou queira manter e, principalmente, para perceber, de fato, quando o amor, e não qualquer outra coisa a que se dê este nome, acontece