Então você tem uma vida e isto faz toda a diferença. Porque você não está exposto, aberto totalmente, sem referências, filtros e alguns dispositivos de segurança. Você não é um líquido qualquer amorfo, insípido, inodoro, incolor esperando que uma embalagem te salve, te dê alguma forma, alguma identidade. Você tem uma vida e há de se prezar isto.
Quem chegar tem que bater à porta e ao entrar, sentir-se confortável, apreciar seus quadros, gostar de seu estilo na decoração, a cashmere em cima do sofá, achar úteis seus eletrodomésticos.
E isto é difícil mesmo, ou não, depende de quem chega, de como entra. Porque no fundo há coisas que são inegociáveis, não porque você seja egoísta ou soberbo, mas porque você é você mesmo. Há de se respeitar. Você não está procurando um salvador, alguém que te tire da vidinha monótona e sem sentido que você leva. Porque se a sua vida é assim, só você pode, de fato, fazer algo por ela.
Você tem que aprender a se cuidar, a se querer bem, se respeitar. Não ficar deslumbrado quando alguém o quer, o acha interessante, como se isso fosse um milagre, um feito estupendo. Se em algum momento você foi frágil demais, medroso o bastante para não conseguir, para precisar de realidades absolutas e poderosas que estivessem a seu dispor; se foi preciso comprar identidades pré-fabricadas em dias de estupendas liquidações, agora não. No meio da noite, enquanto uns poucos bêbados de quarta-feira gritam, aqui e ali, coisas desconexas, lá do fundo, brilha uma tênue luz. E há lascas e restos, e um trabalho persistente, um ofício de artesão: fazer-se, aprimorar-se, deixar polido e sólido o que é você mesmo. E isto em meio à noite difusa, ainda que o coração às vezes lhe bata apressado, diante de gritos esparsos, diante de medos ancestrais. No entanto, há uma luz, um fazer-se homem, gente. Há este esforço de fazer tirar do mais resistente a forma desejada, a identidade forjada a ferro e fogo, porque é única e exclusivamente sua.
Quem chegar, que seja bem-vindo. Mas saiba, eu não estou de mãos vazias. Porque só pode se dar de verdade a alguém, quem se possui minimamente.