domingo, 3 de maio de 2009

Textinho pra não sumir (muito)

Acordei hoje sentindo-me muito estranho. Rodando zonzo pela casa em busca de um café, um pão com qualquer coisa, me dei conta que estava estranhamente só. E não é apenas, ou principalmente, a falta de alguém para compartilhar os lençóis e a vida. Acho mesmo que estou minimamente tranqüilo com relação a isto, pelo menos neste momento. Sinto falta mesmo de certo entusiasmo diante das coisas, de um fascínio que me tomava sempre diante de novos desafios. Parece que vivo mais do mesmo. E não é exatamente algo que eu tenha que fazer, sair mais, ir a lugares diferentes. Desconfio que o que desejo é só encontrar gente nova, que me desafie, apresente-me seu universo, minha vida está tão os mesmos itinerários, pessoas e conversas! Rotina é necessária, estruturante mesmo pra o que a gente quer colher depois, como resultado do nosso esforço, da disciplina empregada. Mas, às vezes, é necessário ir além. Ainda que eu não saiba exatamente o que isto signifique concretamente, porque a loucura, a curtição hoje em dia são também tão óbvias! O que fazer quando se espera mais da vida, mas não se sabe exatamente o que?
Sem vontade e inspiração nenhuma para escrever. Este textinho é só mesmo pra não sumir completamente daqui. Beijos e boa semana.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Than you've got a life

Então você tem uma vida e isto faz toda a diferença. Porque você não está exposto, aberto totalmente, sem referências, filtros e alguns dispositivos de segurança. Você não é um líquido qualquer amorfo, insípido, inodoro, incolor esperando que uma embalagem te salve, te dê alguma forma, alguma identidade. Você tem uma vida e há de se prezar isto.
Quem chegar tem que bater à porta e ao entrar, sentir-se confortável, apreciar seus quadros, gostar de seu estilo na decoração, a cashmere em cima do sofá, achar úteis seus eletrodomésticos.
E isto é difícil mesmo, ou não, depende de quem chega, de como entra. Porque no fundo há coisas que são inegociáveis, não porque você seja egoísta ou soberbo, mas porque você é você mesmo. Há de se respeitar. Você não está procurando um salvador, alguém que te tire da vidinha monótona e sem sentido que você leva. Porque se a sua vida é assim, só você pode, de fato, fazer algo por ela.
Você tem que aprender a se cuidar, a se querer bem, se respeitar. Não ficar deslumbrado quando alguém o quer, o acha interessante, como se isso fosse um milagre, um feito estupendo. Se em algum momento você foi frágil demais, medroso o bastante para não conseguir, para precisar de realidades absolutas e poderosas que estivessem a seu dispor; se foi preciso comprar identidades pré-fabricadas em dias de estupendas liquidações, agora não. No meio da noite, enquanto uns poucos bêbados de quarta-feira gritam, aqui e ali, coisas desconexas, lá do fundo, brilha uma tênue luz. E há lascas e restos, e um trabalho persistente, um ofício de artesão: fazer-se, aprimorar-se, deixar polido e sólido o que é você mesmo. E isto em meio à noite difusa, ainda que o coração às vezes lhe bata apressado, diante de gritos esparsos, diante de medos ancestrais. No entanto, há uma luz, um fazer-se homem, gente. Há este esforço de fazer tirar do mais resistente a forma desejada, a identidade forjada a ferro e fogo, porque é única e exclusivamente sua.
Quem chegar, que seja bem-vindo. Mas saiba, eu não estou de mãos vazias. Porque só pode se dar de verdade a alguém, quem se possui minimamente.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Pessoal, bem pessoal


Tenho gostado imensamente da minha casa nos últimos tempos. Mudei-me efetivamente para cá há pouco. Antes ficava dividido entre a casa dos meus pais, durante a semana, por questões de proximidade do trabalho e de grana, e aqui, nos fins de semana. Mas, nesta época, este meu “aqui” era mais um dormitório, um porto de reabastecimento de sono e de alimento em meio às inúmeras saídas: para a casa de amigos, para a night, para o que der e viesse.
Agora não, tô mais quieto e estar em casa é uma delícia. Porque casa, lar não é o lugar físico em que se habita, mas uma experiência de estar à vontade, tranqüilo, na íntima convivência com você mesmo, com o que te faz bem, sem as pressões e os papéis que a a gente assume em outras instâncias da vida.
Não me sinto assim na casa dos meus pais, nem com eles de forma geral. Estou em casa com os amigos e, queria eu, com o amor. A verdade é que não tem sido simples abrir minha porta e deixar alguém entrar. Acho que não é um movimento natural meu me sentir à vontade com alguém, a não ser em raríssimas exceções. Tem em algo em se relacionar que me incomoda, que me diz toda hora o quanto é melhor estar só, e aí, de forma mais ou menos consciente, escolho isto e nada vai muito pra frente no campo afetivo.
Ontem saí com o E. de novo. Segundo encontro, primeiro a sós. A conversa foi boa, os beijos ótimos. O sexo, bem, pode ser melhor, mas nada que não possa progredir. Agora, durante a madrugada, enquanto ouvia sua respiração a meu lado, e, em meio ao lusco-fusco do quarto, adivinhava suas formas na cama, tive o enorme desejo de que ele acordasse àquela hora mesmo e fosse embora. Quis estar só, programar minha vida totalmente como tenho feito, sem precisar negociar nada. Estava no meu quarto, deitado em minha cama, mas não me sentia totalmente em casa. Será que isto significa que não é ele? Ou será que, de fato, eu tenho uma enorme dificuldade em me relacionar? Vou em frente mesmo diante desta estranheza, não porque precise ficar desesperadamente com ele, ou com alguém neste momento, mas porque se é uma reação freqüente minha este estranhamento, quero insistir um pouco, ver qual é. Eu pensei que fosse mais simples, que amar fosse algo nítido, claro e que se apaixonar fosse tão constitutivo meu quanto à amizade que devoto aos meus queridos. Ah, eu pensei sempre um monte de coisas.

sábado, 18 de abril de 2009

Sonhos, porque tê-los


Ela era a oportunidade perfeita. Desengonçada, esquisita, feia. 47 anos e ainda um sonho de ser cantora profissional. O programa como tantos outros é feito de bizarrices, de gente de quem se ri enquanto o jantar é servido. Pessoas ridículas dão audiência, talvez no mesmo patamar de IBOPE, de miseráveis e desgraçados.
A música de fundo e as risadas ainda antes da apresentação dão o tom do espetáculo que se esperava da escocesa Susan Boyle. É recebida no palco com escárnio, rizinhos e claro desdém. Como a gente se sente irmanado facilmente diante de um alvo. Parece então que podemos, rindo do outro ridículo, nos distanciarmos do ridículo que há em cada um de nós. Nos pomos sempre do lado dos melhores, mais competentes, bonitos e podemos então rir do diferente, às vezes, de puro disfarce, de desespero, rir para se livrar do que, a contragosto, você reconhece também em você mesmo. E nesta ocasião Susan era pra ser um caso clássico e fácil de bode expiatório. Quando ela anuncia o que pretende cantar então... “I dreamed a dream” do musical Les miserables, uma música complexa. Pronto, era só esperar o fiasco.
E quando Susan abre a boca: o espanto. Há algo nela, que lhe sai de dentro, que lhe toma toda e vai além, bastam as primeiras palavras e fica evidente o quanto somos idiotas, ingênuos por achar que conhecemos alguém pelo que ele parece ser. É emocionante. Parece um sonho e é. Só que ali a gata borralheira não sofre nenhuma mudança aparente, não há varinha de condão ou fada-madrinha. Há só o que de melhor e mais bonito cada pessoa é e que está escondido em algum canto de nós. É preciso ter coragem para, apesar de tudo, das risadas, preconceitos e um mundo feito de aparências, acreditar nisto de melhor que há em nós. O caso de Susan Boyle é, como diz a jurada ao fim da apresentação, uma enorme chamada para despertarmos do cinismo, mas é só um exemplo da força bela e harmoniosa que existe em cada um de nós, do dom com que fomos presenteados. Não tenhamos medo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

RAPIDINHAS


Vocês já sentiram a vida estreita demais para quem você se tornou? Viajei esta páscoa e fui muito além dos quilômetros percorridos. Deixar a minha casa, meus horários, minha vida, me fez ver de que outras formas é possível viver. Talvez aquilo a que eu esteja acostumado e chame simplesmente de “minha vida” seja só uma das inúmeras possibilidades que, enquanto se está respirando, é possível realizar.


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Tô com um desejo grande de conhecer gente nova, ampliar meus horizontes. Porque cada pessoa é um mundo. Ela pode morar no quarto ao lado do seu e, no entanto, abrir pra você perspectivas completamente inéditas. Isto é o legal da amizade.


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Mais vale um ex na mão do que pretês voando por aí? Não resisti. Já estava sofrendo os primeiros efeitos da crise de abstinência, quase dois meses sem... para alguém que teve um ritmo semanal, há pouco tempo atrás, é muito. E foi estranho. Porque percebi nitidamente porque terminamos, é tão claro porque não pôde dar certo! E, no entanto, o sexo continua excelente.


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Quis da semana, respondam-me sinceramente: É demais querer um cara interessante, minimamente agradável para se conversar e com uma boa dose de química na cama? É realmente demais? Ë como pedir a paz definitiva no Oriente Médio? Um show por ano da Madonna no Brasil? Ganhar na mega-sena acumulada sem jogar?


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Aprendizado básico de quem se aventurou pela primeira vez em salas de bate-papo: Nunca, jamais confie em fotos, exija webcam sempre!


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Dica do dia: Se você está evitando quimeras românticas, procurando ser alguém mais racional e que leva em conta estatísticas reais sobre relacionamentos, você deve excluir do seu Ipod, do seu computador e da sua vida: “Haja o que houver” (Madredeus) e “Your Song” (Elton John). São recaídas na certa. Não digam que não avisei, hein!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Remniscências Amorosas


(Queridos, o título do post é brega propositalmente, ok? rs)


O PAULISTA


Ele sorria e era nítida sua timidez. Também pudera: 4 contra um. E eu não sabia ao certo, se de fato, o achei àquela primeira vista, assim tão interessante, se foi o desafio dos amigos ou os três chopes até aquele momento consumidos por mim. O fato é que ele estava lá, há duas mesas de distância, me encarava rapidamente, baixava os olhos e sorria.
Faltava um último gole. Talvez do último chope. Não o tinha visto comer, tampouco sabia se ele o faria. Era preciso agir, se eu o quisesse. Levantei-me com a minha tulipa na mão e, para alvoroço dos meus amigos, fui até ele.
- Boa Noite. Eu vi que seu chope tá quase no fim e não quero perder a oportunidade de brindar contigo. Você é muito bonito.
Sentamos. Chegou o sanduíche dele, mais chopes para nós, meus amigos foram embora e eu fiquei, ficamos a noite toda. Depois do barzinho, uma boate. E às 6h mais um beijo de despedida, bem em frente ao hostel dele, no meio da rua, enquanto velhinhas passavam para comprar o pão e porteiros limpavam a calçada de seus prédios.
Ele morava em São Paulo e, na época, eu acreditava que qualquer quilometragem não significava nada quando uma afeição extraordinária te liga a alguém. Ficamos um ano, de 15 em 15 dias, eu indo, ele vindo. Lembro-me perfeitamente das quase madrugadas de Sábado esperando-o na rodoviária e da fascinação que vê-lo sair do ônibus me provocava: lindo. Podíamos falar ou calar um dia inteiro, eu o apresentei à cidade que tanto amo, ele me mostrou uma São Paulo cheia de afeto e de uma vida pulsante. Comecei a me sentir em casa lá, transitava fascinado pelas ruas paulistas, seus musseus, barzinhos e padocas. Não sabia se a cidade era de fato tudo aquilo que tanto me encantava ou se a razão do meu imenso bem-estar era simplesmente ele, o Carlos.
Ainda hoje não posso ver Nutella, ouvir falar na Benedito Calixto sem me recordar de seu sorriso lindo e seus olhos atentos. Com ele tive as melhores sessões de mãos dadas no cinema, os beijos mais amargos de despedida, as ligações mais chorosas ao telefone e, é claro, também as contas mais caras. E tudo valeu absolutamente a pena.
Até que chegamos num estágio em que não era mais possível. Pensei mil vezes em me mudar para São Paulo, mas havia uma série de impecílios incontornáveis. A distância foi se tornando maior, as incompreensões crescendo, minha insatisfação aumentando e tão despretensiosamente como tudo começou, chegamos ao fim.
No entanto, o afeto e alegria por tudo que é bom, verdadeiro, nobre não acabam. O tempo não apaga e nem se perde o que de melhor se vive. Carlos, São Paulo, padocas e mensagens em francês são parte definitivas de mim, da minha história. E eu amo isto.

domingo, 5 de abril de 2009

Ghostbuster


Todo mundo tem medo do escuro? Aquele que existe mais lá no fundinho da gente, quando algum dos nossos planos não se realiza, quando na vida perfeita sonhada por nós há peças fora do lugar que não se encaixam de jeito nenhum?
É de lá que eles surgem, não com grandes sustos e imensas traquinagens de fantasmas bobos dos filmes de terror. Meus fantasmas são delicados. Chegam tão pé-ante-pé que, por pouco, não os noto. Começa a me dar um desânimo, um tédio e tudo por aí suspira: “Ah, não vai dar certo, as coisas não acontecem para mim, não nasci para ser feliz...” Os fantasmas são delicados sim, mas nem um pouco criativos, pois, em geral repetem a mesma ladainha e a dos meus é esta.
Eles me sugerem que há uma espécie de ordem cósmica que insiste em me tirar do melhor da vida. Como se no exato momento em que a luva de borracha do médico me catou do meio das entranhas de mamãe houvesse uma conjuntura diabólica de astros: Netuno, Plutão, Marte e sei lá que luas e galáxias a lançar sobre a minha pobre existência uma maldição do: “desculpa, não vai dar para você” ou do “perdeu playboy”. Tudo isto, claro, sem tanto drama, sem cargas homéricas, só brisas suaves e palavras sussurradas mas que tem o potencial destruidor de um Katrina.
O bom é que cada vez mais identifico no ato a presença destes fantasmas. Quando a minha caixa de pandora se abre, tenho estado muito mais sensível a esta névoa nebulosa que me ameaça. E aí, dou uma de ghostbuster. Nada de escuridão nem fantasmas sussurrantes. Pé na realidade, não adianta idealizar demais. E nem achar que o caminho percorrido até aqui é todo o caminho e nem que as dificuldades enfrentadas serão sempre as mesmas e se forem é porque isto é a vida e eu sou forte o bastante para lutar uma e outra vez. E não existe nada que me jogue fora do ringue, assim como nada, de antemão, que me garanta a vitória. O que há é a luta, o suor e o empenho. E assim, às vezes mais devagar, outras instantaneamente, os bichinhos caem fora. E eu fico feliz comigo mesmo e agradecido à minha porção ghostbuster.