quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Milk - A Voz da Igualdade


Milênios sem ir ao cinema, acho um absurdo pagar quase R$ 20 por uma sessão. Por isto, cá estava eu agüentando firme até Março quando renovo minha carteirinha de estudante (“autêntiquíssima”).
Mas a noite do Oscar, em pleno domingão de carnaval, me fez abrir uma honrosa brecha nos meus planos iniciais. Quando Sean Penn ao agradecer pelo prêmio de melhor ator, afirmou emocionado que aquele filme, MILK, deveria fazer todos os que votaram a favor da volta do veto ao casamento gay na Califórnia pensarem no que fizeram, tive que ir ao cinema no dia seguinte.
MILK é um filme sobre política. E a gente se assusta fácil com esta palavra. Mas a dimensão política do que está representado na tela é a mais genuína possível. Política originalmente significa a tarefa de gerenciar as relações entre os cidadãos, cuidar da vida de uma sociedade, garantir o direito de representação e participação a quem é membro efetivo de uma comunidade. E o fato é que quer gostem de nós gays ou não, nós estamos presentes em cada cidade, região e país deste mundo. Se somos 10%, 15%, 5% ou sei lá quantos por cento, o fato é que existimos como fator social e por isto precisamos ter a nossa participação na sociedade respeitada e garantida.
Harvey Milk percebeu que ter o direito de abrir sua pequena loja junto com seu companheiro em São Francisco era muito mais do que uma questão pessoal a ser resolvida de forma singular. Problemas sociais, como discriminação, exigem respostas políticas. Podemos reagir à discriminação que ronda a cada um de nós ainda hoje de várias formas: fingir que ela simplesmente não existe, aceitar os silêncios impostos à nossa maneira de ser e amar, pensar que a humanidade caminha rumo a uma maior aceitação das diferenças graças à uma evolução natural e que não exige empenho da nossa parte. No entanto, se gozamos de certas liberdades hoje impensáveis no passado, é porque muitos entenderam que sua orientação sexual e as repercussões desta numa sociedade preconceituosa não eram apenas dramas pessoais, mas questões sociais e reinvidicações políticas autênticas.
A política em nosso país está desgastada, os partidarismos ridículos, muitas vezes, contaminam a militância gay, enfim, há um número infinito de motivos para acharmos tudo chato e desestimulante. Mas não é uma opção não nos interessarmos pela dimensão política-social do que somos, do que fazemos na cama, de quem amamos. Porque isto significa, não que estejamos fora da política, isto nunca é possível desde que vivemos em sociedade, mas que escolhemos a pior posição possível: fortalecer com nosso silêncio desinteressado a posição dominante e deixarmos de dar a nossa contribuição para que nós e, principalmente, milhões de gays que ainda estão por nascer, sofram menos, sejam mais respeitados, mais felizes.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Strong enough...


Muitos dizem que a figura do homem gay másculo surgiu como um contraponto à maneira como os homossexuais eram retratados nos relatos médicos (porque durante muito tempo foi considerado patologia) e nos boletins policiais (porque era também crime). A figura do homossexual era a do efeminado, que transitava livre e faceiro pelo feminino incorporando gestos e balangandãs típicos deste universo. “Bicha” era a mulherzinha, a feminina, o passivo. Durante muito tempo e, talvez até hoje em alguns recantos deste Brasil, “comer um viado” não manchava em nada a heterossexualidade do macho ativo. Resquícios disso podem ser sentidos até hoje pelo preconceito que existe dentro do “mundo gay” em relação às bibas mais escandalosas.
Vestir-se como “homem”, falar e gesticular dentro daquilo que, tradicionalmente, é apontado como sendo uma postura de “macho” se tornou então a regra. Neste sentido realçar as fórmulas másculas, os músculos, ter um corpo de homem é um distintivo importante que separa o gay atual da forma como seus companheiros de boyolice eram vistos no passado.
Tudo isto para dizer que eu estou descobrindo uma nova dimensão nesta coisa de músculos. Continuo achando esquisito e meio “artificial” um corpo certinho, musculoso. Me dá a impressão de que é feito de plástico e de que encostando uma agulha: pfiu! Estora. Como toda imposição acho chata... aquela coisa: “Você pode ser gay, desde que seja lindo, bem-sucedido, criativo, fashion... blá blá blá”. Gosto de caras com corpos legais, mas isto não quer dizer, necessariamente, musculosos. Bem proporcionada, num conjunto interessante, uma barriguinha tem um charme irresistível.
No entanto, entendi o fascínio de um corpo musculoso. Não, eu não tenho um, nem peguei recentemente uma Barbie (até fiz, mas não é por isso). Um corpo musculoso é um corpo trabalhado, nele se investiu esforço, energia, disciplina e acho isto fascinante. A idéia de que você não está abandonado, entregue à degradação do tempo, de que seu corpo não é apenas o reflexo das intempéries da vida e fruto dos excessos e faltas que você comete é sedutora. Se você é o seu corpo, isto significa, de algum modo, que precisa ter domínio sobre ele. Confuso?
Talvez ajude o meu exemplo. Estou numa luta danada, nadando contra a corrente, remando contra a maré, construindo tijolo por tijolo o que eu quero, quem eu sou, aquilo que corresponde ao meu desejo mais profundo. E apesar de gostar do meu corpo, de modo geral, acho que ele não expressa o que eu sou, a energia que tenho, a força de que me sinto capaz.
Acho triste o corpo ser reduzido à uma vitrine de carnes, exposto só para alavancar apetites, a fim de fazer parte da turma dos “gays bem sucedidos” ou poder tirar a camisa e ser mais um no deprimente mundo dos sem personalidade que lota a night por aí. Mas ter um corpo que corresponda ao que você é, que expresse sua força e condiga com a sua energia deve ser ótimo.
P.S. Ah, descobri que é isto também que me fascina na Madonna. O corpo dela é expressão de sua determinação, do pódio onde ela quer se manter, seja pelas formas ou pela maneira que dança, parece livre e onipotente. Quer mensagem mais forte que esta?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Procuram-me desesperadamente


Queridos Mr. Angel, Autor, e demais queridíssimos:


A todos que tem se perguntado onde estou lhes digo: Não, a minha curva (vide post anterior) não acabou num precipício (pelo menos não ainda), eu também não estou à base de medicamentos tarja preta jogado numa cama de algum manicômio psiquiátrico e nem encontrei o príncipe encantado e permaneço há dias na garupa de seu cavalo atravessando as pontes e viadutos da cidade maravilhosa. O que aconteceu foi que meu computador deu pau (no pior sentido desta expressão, a princípio, tão animadora). Pifou mesmo. Mas daqui a pouco eu volto. Saudades de vcs. Bjs. Inté

P.S. Eu não quero consertá-lo, talvez compre um laptop.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Na estrada


Eu fiz a curva. E o estranho é que, antes dela, já sabia o que me esperava. Porque é aquela paisagem a que meus olhos sempre quiseram contemplar enquanto corro pela estrada. A reta à minha frente era, sem dúvida, um caminho mais fácil e mais rápido, mas não levava à lugar algum, não ao meu lugar. Por isto apesar de mais longa, esta estrada agora, é, de fato, o meu caminho.
Houve, nos kilômetros anteriores sinalizações. Só que eu, condutor apressado e inconseqüente, passei por elas sem querer entender-lhes o sentido. Uma vez, numa semana de filosofia na PUC, um conferencista disse que aquilo que é fundamental na vida de cada um não somos nós que escolhemos, mas, o necessário é que te escolhe, se apresenta de forma irresistível a você. Lembro o quanto me atordoou isto. E, agora, ao fazer a curva, o quanto pude sentir como proféticas tais palavras.
Ontem, por acaso (?), passava eu distraído na Lapa, com uma cerveja na mão, quando encontro este mesmo cara, na mesa de um bar. Sentei-me e ele me explicou de onde surgiu aquilo. Para Schopenhauer a liberdade não consiste em fazer o que se quer, mas em concretizar aquilo que se é, a sua essência, o seu destino. Mais ou menos o que, depois, dele, Nietzsche expressou com a frase: “Torna-te o que tu és”.
Eu sou a curva. É para lá que o meu destino aponta, lá o encontro. Lá o prazer de se fazer não um trabalho, mas de se construir a si mesmo e de poder ser fiel a isto.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

RAPIDINHAS

_____________________________________________________________________

Hoje no ônibus

- Alô?! Oi! é o Marco.

(Marco... marco... esta voz não me é estranha)

-E aí como vão as coisas?

(Não é este marco, será que é? Não também não é...)

-Escuta, sem ser Sábado agora, no outro, vou dar uma festinha para comemorar meu aniversário aqui no salão de festas mesmo.

Eu: - Oba! Legal

- Hahaha.. você adora uma festa, né?

(Engraçado... quem será?)

-Escuta, convida a Lívia, ela já voltou de Vitória?

(Ops! Lívia????)

Desliguei rapidinho e fui rindo o resto da longa viagem.

____________________________________________________________________

Eu me considero uma pessoa razoavelmente fora do armário. (Não que isto seja algo a ser seguido por todos, ok? É apenas a minha situação e gosto bastante dela). Mas quando, no final do expediente da editora na qual vocês está fazendo um freela, o único cara além de você começa a discutir sobre mulheres com as duas colegas de trabalho e pede a sua opinião num papinho tipicamente hétero de guerra dos sexos, o que eu faço? Corro pro closet. Me senti esquisito mas não dava para dizer:
- Sei lá, gato. Eu sou gay. Me passa o grampeador?

____________________________________________________________________

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Personal Freezer Heart


Meus problemas amorosos acabaram! A partir de agora conto com a inestimável ajuda de um especialista no assunto. Se vocês estão pensando em cupido ou num CEO do disponível.com, parperfeito.com, etc; enganaram-se redondamente. Acabei de contratar os serviços de um:
PERSONAL FREEZER HEART
Este especialista faz seu début (que coisa gay!) no mundo contemporâneo e é a grande solução para pessoas românticas e idealizadoras como eu. Sua tarefa principal consiste em mostrar que o que denominamos “amor”, de fato, não existe. Ou se ocorre é tão raro que deve se dar uma vez a cada um milhão de anos, num rodízio de continentes e respeitando as porcentagens estatísticas das orientações sexuais. Ou seja, a última vez que ocorreu tal fenômeno foi numa montanha no Tibete entre duas lebres machos na década de 50.
Particularmente, meu Personal freezer Heart é Tb um blogueiro. Ele tem me dado dicas preciosíssimas, tais como:
"Use, depois jogue fora."
"Nada de suspiros e olhares perdidos."
"Seja você o conquistador, não o conquistado."
Estou me esforçando bastante. Para me exercitar ponho as músicas mais mela-cuecas do mundo e fico olhando fotos de casais fofos, e depois troco a música (Womanizer da Britney ou uma bate-cabelo que diz “I’m strong enough, strong enough to live without you” ) enquanto rasgando as fotos, emito uma gargalhada maléfica.
Quem desejar a indicação deste maravilhsoso Personal, deixe seu contato nos comentários. E não se esqueça: “O amor não existe, meu bem, a vida é sórdida. Hahaha (SAP: Eis a risada maléfica).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Fim-de-Semana "Gaytorade"


Queridos, em primeiro lugar quero agradecer de verdade a todo mundo que me deu suas palavras de carinho e força nos comentários sobre o último post. Obrigado! Me senti muito acalentado virtualmente por vocês. Bem, feito o devido agradecimento... tive um ótimo fim de semana. Não, não está tudo maravilhoso, ainda me sinto sem energia, meio cansado, mas me recusei a ficar em casa. Sei bem o que me dá ânimo. E fui atrás disso.
Na Sexta fiquei na casa dos meus pais. Colinho de mamãe e almoço especial pra mim no Sábado: Empadão de camarão. Viva mamãe hehe...
De noite fui ao Boy Bar. Na verdade, apesar de ser pequeno, é a boate que mais gosto. Fico logo enjoado com mais de 10 minutos de bate-estaca e lá tem a trilha sonora perfeita para quem quer se acabar na pista de dança: Pop Music com muito flashback. Aquela coisa que vai desde os hits bate-cabelo atuais (E tome Madonna, Beyonce, Britney, Shakira...) até Abba e Michael Jackson ainda preto e molequinho com os irmãos (como se chamava o grupo mesmo?). Além disso, não tem nenhuma Barbie louca do edi tirando a camisa e o percentual de gente fazendo a egípcia (SAP: carão) é mínimo.
Me acabei, dancei horrores sem saber se haveria amanhã, sem vergonha e nem pudor. Dei uns beijinhos, mas não era isso que eu estava procurando ali. Não aquela noite.
Cheguei em casa 6: 30h, dormi um pouco e fui para Ipanema. Caramba! Parece que todos os homens bonitos de todas as orientações sexuais, aparências e etnias estavam ali. Fui com amigos queridíssimos. Daquele tipo que te faz recordar a todo instante como é um dom precioso e inestimável uma verdadeira amizade. Depois pizza e cá estou.
Não vou dizer que, vez por outra, não me lembrava dele. E que, mesmo em meio à luz tão boa do sol sobre meu corpo, às risadas gostosas com os amigos, eu não estremecia e murchava por um segundo. Mas só por este tempo. Só um pouco. A vida segue, não é? E eu não quero ficar parado. Não mesmo.