Ainda se podia ver, oblíquos, os raios claros incidindo sobre os prédios à esquerda. Achou estranho pensar que, para os apartamentos de frente, isto era todo o céu: um pôr-se calmo do sol, o declinar sereno do dia de intenso calor, tradução tão óbvia do que significa o Rio em Janeiro.
Pensou que a falta de ângulo, de perspectiva impedia aquela gente de ver o outro lado. Imaginou-os ingênuos e felizes a programar praias e piqueniques para o Sábado, adolescentes histéricas ligando para amigas, senhores com suas barrigas de chope pensando onde comprar a carne do churrasco. E, no entanto, um pouco mais a leste, estavam todas lá: as nuvens negras, densas, que poucos podiam ver.
Saiu da janela, e vagou distraído pela casa, passou a vista em quadros e armários, livros e portas, no que não pôde enxergar, naquilo que o ângulo, a perspectiva tornara invisível há pouco tempo atrás, no momento de uma felicidade tão clara e morna como um fim de tarde de verão. E aí, num momento qualquer que nem chegou a se lembrar qual foi, porque o contou simplesmente como mais um habitual, num instante preciso e indiscernível, trovejou e a ruína de tudo fez-se presente.
Lá fora, os primeiros pingos grossos de chuva estavam prontos para bater inclementes e metálicos sobre o ar-condicionado. Porém, dentro, a tempestade já desabara.