quinta-feira, 9 de outubro de 2008

EURECA!

Sim, acho que descobri. No fundo, a minha insatisfação e tristeza vêm do fato de eu não estar dando a devida atenção ao meu desejo. Tenho olhado muito para o que preciso, para o que é necessário, para o mais útil. Mas nem sempre isto corresponde ao que você é e ao seu genuíno desejo.
É preciso que eu me freqüente mais, habite a mim mesmo, esteja con-centrado em mim. Tenho uma facilidade enorme em me dispersar, uma aptidão para fantasias, bailes luxuosos de carnaval fora de época, com confetes e serpentinas para alegrar a vida e colori-la nem que seja pelo breve instante de tê-las ao ar.
Cansei do mecanismo louco de me atirar sobre tudo com sede e ânsia, para, logo depois, eleger um alvo ainda melhor, ainda mais gratificante sobre o qual me lançar.
Despir-me, tirar a maquiagem, mesmo a corretiva; ir ao espelho, com minhas imperfeições e marcas. Mas também com o fulgor dos meus olhos que sei que há e contemplar a vida que é minha, que sou eu. Só eu e nada mais.
Estar em mim de tal forma que a minha palavra não seja entonada, os meus gestos sejam só os “meus” e em tudo que de mim brotar, eu possa reconhecer-me ali: nas pessoas que amo, no trabalho que exerço, no rumo que dou a cada um dos meus dias.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

I need a drink, maybe two or even more...

É estranho como as coisas podem estar minimamente resolvidas e pacíficas, ainda que longe do ideal, no exterior e, lá dentro, você só sente vontade de sentar e chorar, depois de quebrar tudo, é lógico.
A verdade é que tenho me questionado como nunca antes o que eu quero, pessoal e profissionalmente.
A sensação de não estar no lugar certo, mas não saber para onde ir.
Garantir o pão de cada dia ou viver do sonho que alimenta a vida? E o pior: que sonho é o meu?
E o amor? Cadê ele? Pode uma história se esboçar lindamente, durante meses, e de repente, quando todos os entraves são retirados, simplesmente murchar? Ser ele o cara perfeito para você, legal, inteligente, companheiro, a não ser pelo fato de seu desejo por ele ter desaparecido repentinamente?
E aí, resta nas tardes de chuva fina este aperto idiota no peito, a boca amarga e um torpor que ameaça te paralisar para sempre em qualquer esquina imunda da cidade.
E o esquisito de tudo é que eu não sei mesmo o que está acontecendo: inferno astral, encosto, urucubaca, bichice aguda?
Aceita-se sugestões para diagnóstico e poções mágicas de tratamento.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ode a um amor

Eu quero a brasa ardente sobre a pele crua,
a dor do insuportável para sempre,
para o bem e para o mal marcada na mémória: da pele que se deu e assim, não pode mais voltar a si, sem estar também nela a memória do incandescente aguilhão
Nesta volúpia louca do que é a perdição de uma vida em outra, ao mesmo tempo em que se desconhece por inteiro a si mesmo, rasgando-se identidades, emerge o doce, o sutil e o próprio de si mesma.
Eu quero a marca em altas bordas sobre a pele entregue, a dor fina do não cicatrizado, do ainda aberto, do para sempre exposto, a paga do delito que é amar , de maneira insana, contra todos os bons modos, esgueirando-se sob tudo o que já se disse ou cantou sobre isso.
O amor só, entregue, perdido, louco que uiva pelos telhados da cidade em noite de gélida lua e se encontra ainda pelas manhãs nas mãos grossas dos que, pelos butiquins, lavam restos ordinários do amor em copos de requeijão.
A marca, a flor posta a ferro, o fogo que devora e machuca a pele em guerra até que consumida pelo inefável, descansa ou jaz morta e por isto serena, entregue àquilo de que não se pode, e não se quer escapar.

domingo, 28 de setembro de 2008

Sim, eu sou cego.

Essa semana vi Blindness (Ensaio sobre a cegueira). E na verdade o importante é o que se vê por meio dele. O filme é incrível, são tantos elementos, tão impactantes as cenas, a luz, os cenários, a atmosfera do filme é tão adequada que tudo constrói a história, não há nenhum elemento desperdiçado, tudo está ali em prol de um objetivo.
Sendo assim poderia falar de 5.846 coisas maravilhosas. Mas há 2 delas que, definitivamente me capturaram. A primeira é o fato de não ser o filme uma metáfora da realidade, a cegueira contagiosa não é um artifício literário-cinematográfico para simbolizar uma situação. Não! O real sim é a cegueira epidêmica fantasiada, disfarçada, colorida, glamourizada.
Especialmente nas seqüências do sanatório o que há no filme é a “vida como ela é”. Fernando Meirelles despe a fantasia, arranca as vestimentas fahions ou ordinárias que encobrem a nossa pobreza. Estamos todos cegos. Animalescamente perdidos, devorando-nos uns aos outros em nossa estupidez branca e cintilante (a cegueira não é escuridão no filme).
E isto causa um mal-estar, uma vontade de sentar ao meio-fio qualquer de uma cidade-sanatório da megalópole mundial e chorar. Por que, se nem mesmo sabemos que estamos completamente cegos, nossa situação é mil vezes mais desesperadora do que a presente no filme.
Mas há uma redenção possível. Salvação: Eu acredito! E ela passa por voltar pra casa, ouvir daquele que nos olha o quanto somos belos, mesmo que nós mesmos não enxerguemos isso e crer que há cores, muitas delas que virão em novas e surpreendes texturas em todos os possíveis e impossíveis objetos a serem alcançados por nossa, então, refeita vista. Sim eu acredito em redenção.
A segunda coisa impressionante? Fica para o próximo post. Não percam o filme.

domingo, 21 de setembro de 2008

À procura da palavra perfeita

Quando a vida é demais, as palavras nos escapam. A vida então gira e à sua volta, tudo dança de maneira louca e bela. As cores se dissipam em outras tantas e as melodias surgem espontâneas do nada, das graminhas mais ordinárias. As mais belas palavras se encontram em outdoors por todo o canto. Nada se compra, se vende, porque tudo é gratuito, as coisas se dão em espontânea e total entrega.
Por isto hoje não posso escrever. Não há palavras, nem pontos finais, inexistentes são hoje os recuos de parágrafos.
Porque hoje só o que há é a vida; e ela basta.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Decisão

Morro de vergonha da exploração da miséria alheia. Hucks, Gugus e parasitas da vida que transformam a carência do mínimo necessário em audiência a ser conquistada nos confortáveis lares da classe média nas tardes de fim de semana.
Tenho conflitos em dar o que se pede pelas ruas, ajuda de fato alguém ou apenas confirma a falência ridícula da nossa sociedade?
Nunca dou dinheiro. Mas hoje neguei comida. Tomando meu café-da-manhã na padoca, o menino se aproxima de mim e me pede. Automaticamente o polegar pra baixo diz: “- Ta ruim, meu amigo.” E ele afirma que não quer dinheiro, mas comida. E eu disse não.
Assim que ele se afastou, lembrei-me do “tive fome e me destes de comer”, das oportunidades que eu tive, da merda que deve ser a vida deste garoto. Envergonhei-me pela náusea sentida por seu cheiro ocre, o desvio do meu olhar, a minha cômoda posição.
Quando saí, o menino estava lá e nos seus olhos, evidente, a fome. Paguei o salgado e o refresco. Isto muda alguma coisa? Não sei. Provavelmente nada. Mas, às vezes, todo o universo e uma vida inteira se decidem em um único gesto.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

WORK...AHOLIC

Ontem entreguei o projeto. E nesta manhã, pelo menos, eu quero o nada. No meio do far niente, toca. A voz enjoada do compromisso, a “Madame Responsabilidade”, “trabalho nota 10” ou “redação do ano” cobra:
- Tem que mandar as notas das provas de recuperação, dos testes e das provas bimestrais.
-Tudo bem, na Segunda, eu deixo ai.
-Na Segunda não dá, você sabe que é um longo processo: tem que lançar as notas, imprimir os boletins...
-OK, amanhã eu envio as notas da prova de recuperação.
-Só amanhã? E só da recuperação?
-É, só.
Eu conheço a figura. E desconfio das pessoas que fazem de si a função que exercem, configuram-se a tal ponto que viram um crachá e exercem sobre os outros apenas os seus pequenos poderes. Para mim, isto não é responsabilidade, beira a loucura.