domingo, 28 de setembro de 2008

Sim, eu sou cego.

Essa semana vi Blindness (Ensaio sobre a cegueira). E na verdade o importante é o que se vê por meio dele. O filme é incrível, são tantos elementos, tão impactantes as cenas, a luz, os cenários, a atmosfera do filme é tão adequada que tudo constrói a história, não há nenhum elemento desperdiçado, tudo está ali em prol de um objetivo.
Sendo assim poderia falar de 5.846 coisas maravilhosas. Mas há 2 delas que, definitivamente me capturaram. A primeira é o fato de não ser o filme uma metáfora da realidade, a cegueira contagiosa não é um artifício literário-cinematográfico para simbolizar uma situação. Não! O real sim é a cegueira epidêmica fantasiada, disfarçada, colorida, glamourizada.
Especialmente nas seqüências do sanatório o que há no filme é a “vida como ela é”. Fernando Meirelles despe a fantasia, arranca as vestimentas fahions ou ordinárias que encobrem a nossa pobreza. Estamos todos cegos. Animalescamente perdidos, devorando-nos uns aos outros em nossa estupidez branca e cintilante (a cegueira não é escuridão no filme).
E isto causa um mal-estar, uma vontade de sentar ao meio-fio qualquer de uma cidade-sanatório da megalópole mundial e chorar. Por que, se nem mesmo sabemos que estamos completamente cegos, nossa situação é mil vezes mais desesperadora do que a presente no filme.
Mas há uma redenção possível. Salvação: Eu acredito! E ela passa por voltar pra casa, ouvir daquele que nos olha o quanto somos belos, mesmo que nós mesmos não enxerguemos isso e crer que há cores, muitas delas que virão em novas e surpreendes texturas em todos os possíveis e impossíveis objetos a serem alcançados por nossa, então, refeita vista. Sim eu acredito em redenção.
A segunda coisa impressionante? Fica para o próximo post. Não percam o filme.

domingo, 21 de setembro de 2008

À procura da palavra perfeita

Quando a vida é demais, as palavras nos escapam. A vida então gira e à sua volta, tudo dança de maneira louca e bela. As cores se dissipam em outras tantas e as melodias surgem espontâneas do nada, das graminhas mais ordinárias. As mais belas palavras se encontram em outdoors por todo o canto. Nada se compra, se vende, porque tudo é gratuito, as coisas se dão em espontânea e total entrega.
Por isto hoje não posso escrever. Não há palavras, nem pontos finais, inexistentes são hoje os recuos de parágrafos.
Porque hoje só o que há é a vida; e ela basta.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Decisão

Morro de vergonha da exploração da miséria alheia. Hucks, Gugus e parasitas da vida que transformam a carência do mínimo necessário em audiência a ser conquistada nos confortáveis lares da classe média nas tardes de fim de semana.
Tenho conflitos em dar o que se pede pelas ruas, ajuda de fato alguém ou apenas confirma a falência ridícula da nossa sociedade?
Nunca dou dinheiro. Mas hoje neguei comida. Tomando meu café-da-manhã na padoca, o menino se aproxima de mim e me pede. Automaticamente o polegar pra baixo diz: “- Ta ruim, meu amigo.” E ele afirma que não quer dinheiro, mas comida. E eu disse não.
Assim que ele se afastou, lembrei-me do “tive fome e me destes de comer”, das oportunidades que eu tive, da merda que deve ser a vida deste garoto. Envergonhei-me pela náusea sentida por seu cheiro ocre, o desvio do meu olhar, a minha cômoda posição.
Quando saí, o menino estava lá e nos seus olhos, evidente, a fome. Paguei o salgado e o refresco. Isto muda alguma coisa? Não sei. Provavelmente nada. Mas, às vezes, todo o universo e uma vida inteira se decidem em um único gesto.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

WORK...AHOLIC

Ontem entreguei o projeto. E nesta manhã, pelo menos, eu quero o nada. No meio do far niente, toca. A voz enjoada do compromisso, a “Madame Responsabilidade”, “trabalho nota 10” ou “redação do ano” cobra:
- Tem que mandar as notas das provas de recuperação, dos testes e das provas bimestrais.
-Tudo bem, na Segunda, eu deixo ai.
-Na Segunda não dá, você sabe que é um longo processo: tem que lançar as notas, imprimir os boletins...
-OK, amanhã eu envio as notas da prova de recuperação.
-Só amanhã? E só da recuperação?
-É, só.
Eu conheço a figura. E desconfio das pessoas que fazem de si a função que exercem, configuram-se a tal ponto que viram um crachá e exercem sobre os outros apenas os seus pequenos poderes. Para mim, isto não é responsabilidade, beira a loucura.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A palavra; o Abismo

Eu nunca disse: “eu te amo”. É sério. Quer dizer, disse para inúmeros queridos amigos e familiares, mas nunca para alguém com quem eu estivesse namorando. Sempre tive medo do comprometimento que as palavras carregam. Um “eu te amo” é o convite a que o outro se lance sem medo e descanse solidamente o seu afeto em você.
Não disse e ainda não direi. Mas a verdade é que algo está acontecendo. Há meses, entre idas e vindas, desistências e reencantamentos, um cara não me sai da cabeça, e do coração?
E isto pode parecer habitual, comum, a maneira mesmo das coisas ditas afetivas serem, mas não para mim. Eu descolo fácil. Ultrapasso desejos e quebro vontades como quem sai e fecha a porta atrás de si. Da mesma forma que me lanço-para; saio, quase ileso, do que já acabou, ou do que simplesmente não há como ser.
No entanto, agora, giro entorno a esse cara, como num campo magnético, ora mais próximo, outras vezes tão distante que pareço nem mais orbitá-lo, mas basta conhecer alguém para perceber o quão central é esta referência.
Seria isto paixão? Quando alguém parece te deixar tão à vontade que você mesmo descobre coisas novas a seu próprio respeito, isto há de ser levado em consideração.
Entre desistências e decisão, a presença querida e ausências inexplicáveis, eu me calo. Porque a maneira como tudo isto me mobiliza me desconcerta e assusta. Mas a verdade é que me faz sentir mais vivo e pressinto até, rodopiando à minha volta, uma daquelas histórias de amor que tornam o mundo e à vida definitivamente mais belos e se inscrevem ocultas, para todo o sempre, no centro do universo, se vividas com generosidade. Terei eu essa entrega?
Quando tudo é tão simples e abissal, como quebrar o silêncio do destino? Não quero mais confiar a ele esta história, quero torná-la minha. Apossar-me dela, possuí-la lançar-me sobre, para o bem e o mal, às custas dos arranhões e da terra batida sobre as vestes. Agarrá-la pela palavra. É isso, preciso de uma palavra.
Seria “amor”?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

AVISO - NIETZSCHE NÃO MORDE

Não sei se há alguma relação, mas os dois posts com menos comentários (reparei agora) tem a ver com Nietzsche. Na verdade, o que apresenta uma citação dele sobre música, não tem nada a ver com ele é só o título. Podem ler sossegados...

Será coincidência?

Bolo e guaraná, muito doce pra você

31. Hoje. E é estranho pensar como ser o centro das atenções me encabula um pouco. È aquela minha velha história de estar sempre disponível para os outros, adorar fazer um agrado, um carinho, um presente, mas me sentir esquisito quando sou eu a recebê-los.

É bem verdade que já foi muito mais. No fundo, deve ser um ranço qualquer de uma auto-estima sofrida, restos e raspas de sensações e experiências que ficaram dependuradas por aqui, em mim, em algum lugar.

Para o chopp-celebração de hoje convidei todos aqueles que fazem parte de mim, fizeram ou quase isso. Indiscriminadamente, sem o medo ancestral que me acompanha há séculos de aniversários: Será que vai alguém? Não importa. Lembrar de todos é o que me diz que a vida, está aí, sempre às portas, nova, pungente e é preciso de fato agarrá-la, desejá-la como se quer o bem-amado. É preciso gostar da vida, ser generoso com ela.

E isto eu venho aprendendo, ah se venho...