quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Das Palavras que existem e daquelas que invento

O mundo é feito de palavras e silêncios. Uma cama só é assim porque alguém, num certo momento a disse: cama. Fico pensando na origem das palavras, como estas surgiram, de onde veio cada nome que é alguma coisa, que outras remotas possibilidades existiram para algo e que, simplesmente, submergiram no rio do esquecimento, naquele desaparecer lento e banal do que não se populariza, do que não se diz de novo e de novo.

Eu trabalho com palavras, eu me divirto com elas. Em meio à minha indefinição financeira a médio-prazo: terminar a licenciatura, começar o doutorado, pensei que, talvez, eu pudesse me dedicar aos números, aos cálculos ou às coisas. Abriu um concurso para a Petrobrás: inspetor de segurança interna, técnico de administração e controle, técnico de comercialização e logística... tenho certeza que tudo muito interessante, e honrado é tudo aquilo que com o suor se ganha o pão de cada dia. Mas eu não sei os números, as tabelas me cansam e as coisas o são enquanto podem ser ditas, retorcidas para que delas escoe a poesia.

As humanas são isso. Rigor científico, linguagem técnica e, no entanto, a crença de que a vida pode ser expressa, dita, desmembrada em páginas, teorias e um todo sistemático de fundamentações que são no fundo, palavras. A eterna tensão entre o que é e o que pode ser dito do que é.
Essas serão as minhas palavras. Ainda que, no fundo, sejam outras as que me encantam. Eu gosto mesmo é de sair num dia de sol e sentir despertar em mim: ”cálido”. O céu de nuvens, com ventos apressados e o ar denso: som terrível do temporal. O riso aberto e solto dos que envolta da mesa deixam o tempo de Domingo passar: conforto, ternura, abraço, amigo.

Encantam-me as palavras escondidas em tudo. No negro asfalto sob o sol a pino, na flor banal que nasce em brechas de muros, nas juras solenes dos humanos e no existir de plantas e bichos.

Passo pela vida, colhendo-as, aqui e ali, como, quando e “se” posso e vez por outra, deixo alguma cair da minha cesta na esperança de que outros, aqueles que me precederam nos caminhos, façam o mesmo por mim.

11 comentários:

Bia Fontoura disse...

emocionei Rafa....
beijo no cérebro e abraço na alma.
saudades.

Jean Borges disse...

Nada como ser um ser inspirado!!! Mais um texto liiiiindo!!!
Abraços!!!

Alexandre Willer Melo disse...

bravo!
também sempre fui delas, nunca dos números.
os uso como muleta para amparar palavras que mal sabem andar mas, quando estas sentem as pernas firmes, largam dos números e os mandam às favas.
se não pudesse escrever, usá-las, morreria.

FOXX disse...

sempre vou preferir as palavras aos numeros, mas no fundo é tudo linguagem né?

Wans disse...

Eu defintivamente nasci para as humanas. Em todos os sentidos.

Depois de BH, quando cai por aqui?

bjão

Atitude do pensar disse...

Palavras escondidas... Interessante!
Nunca vi dessa forma, sempre as analisei como uma fonte de poder, como as utilizada por Hitler... As que Orwell apresenta em "1984" e afins.
Bem, elas sempre me encantam. Mas prefiro as que leio do que as que escrevo.
Lembro-me que deste criança utilizava frases de autores com a seguinte desculpe: Eu sei que pertence à eles, mas parece que sairam de mim e, portanto também são minhas...rsrs
Afagos em ti!

Lobo disse...

Prefiro as palavras aos números, mas prefiro ainda mais o ser do que as palavras. Me aventurei um tempo pelas humanas, mas me enrolei por demais. Entrelinhas não foram feitas pra mim XD.

Beijos Rafa!

Fred disse...

Também sou um homem das palavras. Encatam-me todas elas. Maravilha de texto, guri! Bjz!

Ma disse...

Wow, isso me lembrou um dos livros que mais mexeu (e mexe) comigo, até hoje: O arco e a lira do Octavio Paz. As palavras tem seu poder sobre todos, mas minha tentativa é sempre fugir delas, é, através da linguagem poder explorar o indizível de maneira verbo-textual, hehe

Enfim, adorei o texto, huaau

Abs

Luciana Nepomuceno disse...

Amor, você me descasca feito cebola. Cada post,uma camada. Vai fazer refogado?

Júlio César Vanelis disse...

Fico feliz de poder apreciar coisas desse tipo... Acho que humanas foram feitas para humanos... Por mais que o cara goste de se arriscar no mundo dos números, ele vai ser um completo ignorante se não souber lidar com as palavras...
Não sei se teria competencia para fazer disso uma profissão. Subjetividade é algo muito incerto para mim, gosto de lidar com ela, mas sem compromisso, só como diversão. Por isso eu não escolhi trabalhar com palavras, sou mais seguro com os números e as tabelas nesse sentido (que até me cansam, mas eu acostumo... xD)... Mas enfim, eu quero ser o cara que se depara com uma maravilha de texto como esse e não consegue passar da metade porque as palavras o "cansam"... no way... hehehe

Um abraço Rafa... Parabéns pelo texto... Realmente divino ;D