O espanto de todos nós com o segundo turno é por percebermos como a religião ainda é uma força poderosíssima no Brasil, capaz de coagir candidatos a assinar termos de compromisso, “cartas abertas” nas quais prometem se alinhar às posições daqueles que se julgam os detentores da verdade moral sobre toda a nação. Em troca? Votos, a promessa de milhões de votos.
E a situação ficará pior! Os segmentos neo-pentecostais, de moral conservadora, são os que mais crescem atualmente quer no meio evangélico, quer na igreja católica, nesta sendo conhecida como “Renovação carismática”.
Aqui e ali se reage. “O Brasil é um país laico”! “A constituição assegura a separação entre Estado e Religião”! Formalmente muito correto e bonito. A questão é que a política, ainda mais a eleitoral, não se rege inteiramente por princípios, nem pelos constitucionais muitas vezes, mas pelas circunstâncias.
A política, a “arte do bem gerir”, se faz a partir de demandas específicas de grupos. O jogo político é aquele no qual cada segmento social procura se fazer representativo e às suas propostas, angariando o favor dos políticos em troca de apoio, de voto.
É preciso gritar sim nessa hora, apelar para os princípios constitucionais. Mas, sobretudo, é preciso que tenhamos (nós, os gays) uma identidade política, uma voz alta e clara no cenário eleitoral para que não apenas falem de nós (os evangélicos, os candidatos, a mídia), mas que sejamos sujeitos reconhecidos do nosso próprio discurso, um dos muitos segmentos sociais a exigir reconhecimento e representatividade.
Avançamos em muitas áreas a passos largos, menos na política. Beijar à vontade na boate, ser retratado de maneira “fofa” (argh!) na mídia não nos garante direitos políticos, não nos livra de ter de lutar, politicamente, para deixarmos de ser pseudo-cidadãos neste país.
10 comentários:
Amor do meu coração, nãovamos colocar o carro na frente dos bois nem nos deixar levar por boatos. Você já viu a tal carta? Nem eu. Não está no site do PT nem no blog de campanha da Dilma. Você não quer lê a Cynthia e refletir um tantinho antes de tomar posturas mais extremas? Bjs da sua amiga
http://cynthiasemiramis.org/2010/10/14/boato-pt-religiao-direitos-das-mulheres-e-homossexuais/
Acho perigoso falar isso (principalmente sabendo um pouco sobre você), então espero que não leve a mal: a religião é algo muito forte para pessoas "burras". Somente elas deixam que a religião seja mais do que tudo na sua vida.
E o Brasil é um pasto. Infelizmente.
Este 2º turno conseguiu trazer as discussões de volta para cerca de 1970. Quarenta anos de avanços foram jogados no lixo.
Muque de Peão
A cynthia mandou portanto fui lá antes. E lá eu disse:
Bom, antes de comentar no Rafael segui sua indicação e vim aqui refletir um pouco mais. Ontem tb fiquei revoltado – esperando um posicionamento mais claro da Dilma. Mas depois que o UOL ficou a manhã toda dizendo “Dilma é contra o casamento gay” e a tarde toda com “Serra é a favor da união civil”, sendo que ambos os candidatos nos textos das matérias dizem a mesmíssima coisa (mexer com religião não, direitos civis sim) vi que estava quase caindo no embuste. Ainda assim, gostaria de alguém mais “Tom Dobbs” (Man of the Year/O Candidato Aloprado).
O que me espanta em toda essa situação não é a falta de posicionamento a favor por parte dos políticos, mas sim como para ganhar votos de fundamentalistas, eles apelam e só faltam declarar-se a favor da volta da família real.
Como gay, acho um lixo a questão de reconhecimento de direitos civis e muitas vezes me sinto portador de um respeito alegórico, um respeito que não tem validade ampla, em todo e qualquer lugar, só funciona quando misturado com uma postura discreta, um bom emprego e se estiver nos lugares certos. Isso cansa. Se a situação um dia se reverterá? Acredito que sim. Quando? xiiiiii...
bj
Falaste bem... a hora do espanto mesmo!
A abglt divulgou hoje uma "carta aberta às candidaturas de Dilma e Serra". até que enfim uma entidade que representa os direitos dos gays manifestou-se publicamente a respeito.
a carta pode ser encontrada em http://tinyurl.com/29msep5.
abs
Concordo em gênero número e grau, uma vez num post falei que enqto levarmos isso na sacanagem compreendendo o carnaval da parada gay como nosso maior gesto político, vamos ter no máximo um beijo na novela das oito..
Isso é pouco.. Eu quero direitos, pk é disso que vivemos, todo o resto se ajusta e acompanha....
Engaçado precisar pleitear meus direitos estando vivo, dentro de uma sociedade e pagando impostos. Ultrajante ter que gritar a todo momento: "Hei, tô aqui, quero respeito". Abraços e ótimo fim de semana.
Ótimo post!
Abraço!
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