Durkheim, um dos sociólogos mais importantes da França, classificava a religião como um fato social total. Isto porque, classicamente, a religião não diz respeito apenas à uma dimensão da vida do indivíduo, mas é algo que o influencia em todas as áreas: na vida familiar, em sua visão política, em seus juízos morais sobre o mundo.
Hoje em dia, isto é bem discutível. Pode-se aderir parcialmente a um credo, ou mesmo, elaborar a sua própria espiritualidade, juntando elementos de religiões distintas. Mas não nos enganemos. Há redutos onde a religião é ainda a força que determina tudo na vida.
Aaron Fleishman herdou o açougue Kosher após o falecimento de seu pai. Kosher é o tipo de comida certificada como pura pelos rabinos para a alimentação dos judeus ortodoxos. Ele contrata como funcionário, Ezri, que chega em Jerusalém com a intenção de estudar numa escola de Rabinos.
O Pecado da carne, título original “Einaym Pkuhot” (alguém sabe hebraico, aí?) é um filme sobre o desejo. Mas um desejo escuro, sombrio, que se esconde sobre as pesadas roupas pretas, as longas barbas, os aparatos religiosos dos judeus ortodoxos. Uma paixão vivida como tormenta, que se espalha no corpo acelerando os batimentos cardíacos, formigando as mãos, provocando movimentos que são entendidos como os sintomas de um mal a ser combatido, recusado, vencido pela fé. O tesão como tentação, a capacidade de resistir vista não como covardia, mas amor a Deus. Quando uma parte de você clama e este grito ameaça estilhaçar tudo o que você tem, ruir as estruturas todas do mundo e te precipitar no nada, no vazio total onde só há o desejo: forte, desconhecido, imperioso, é preciso, desesperadamente sufocar este grito, calar sua voz.
Lembrei-me de outro filme judeu sobre o tema, o fofíssimo “The Buble”. Ainda que o final seja triste, a história consegue ser leve, colorida. Há espaço, vãos pelos quais o amor entre os personagens respira, cresce, se satisfaz. Tel-Aviv, a capital de Israel, tão mais moderna e ocidental que Meah Shearim, o bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém. Em Meah Shearim o amor se confina a cubículos escuros, bagunçados e ao menor sinal de visibilidade, foge pelas ruas estreitas, cercadas por amplas muralhas de pedras.
O filme repercutiu em mim porque fiquei pensando na minha própria história, os conflitos todos entre minha sexualidade e a religião, e porque num vislumbre, entendi que é a realidade de milhares de pessoas neste momento. Não só lá em Israel mais aqui. Católicos, protestantes, e sabe-se lá em que outras religiões. O Amor, ainda mais o maior deles, o de Deus, não deveria ser uma libertação?
Deixo uma música que diz, como só Chico pode fazer, esta realidade toda aqui escrita, de forma belíssima: “Será que o deus que criou nosso desejo é tão cruel, mostra os vales onde corre o leite, o mel e estes vales são... de deus”.
18 comentários:
Esta culpa que nos é imposta quando nascemos em qualquer religião, faz pensar, será que quem é desprovido de qualquer vínculo religioso leia-se; nascer em um lar "Ateu" nos libertaria dos "pre-conceitos" já pre concebidos!?.
Acho que cada pensamento nosso sobre esse tema é praticamente um universo inteiro!
O amor divino é libertação, mas as formas como ele tem sido transmitido tem constantemente sabotado essa premissa básica para entendê-lo.
Acredito que todos nós temos de promover um 'descolamento parcial' do que se há escrito nos dogmas das religiões e por um instante através do coração achar as respostas que buscamos.
É um desafio nesses tempos em que só se ve os dois extremos dessa idéia: a descrença - geralmente por decepção - e o fanatismo religioso - que tem cegado muitas mentes por ai!
abração! ^^
Honey,
Acho que os gays deveriam "revistar" os temas de religião e/ou da espiritualidade.
Gays de maneira geral, tem duas posturas com relação à religiosidade, ou a tratam como algo abominável, fruto do obscurantismo e da ignorância, ou a vivenciam como uma permanete fonte de culpabilizações.
Se a leitura do cristianismo que prevalece é aquela que condena o homoerotismo (perceba que não falei de homossexualidade, e não acredito que seja apenas uma questão semãntica), isto não significa que esta seja a única. E que leituras alternativas não devam ser exploradas.
Ora, se os simbolos e os textos religiosos , são em sua essencia ambíguos, e podem ser interpretados de formas tão diversas, por que deixar prevalecer aquelas que geram maior preconceito, discriminação e culpa?
Não defendo a adesão a religião A, B ou C, mas não tenho dúvida nenhuma de que uma perspectiva espiritualizada da existência é algo que, diante da complexidade e dos desafios da vida, pode trazer a muitas pessoas o a serenidade e o conforto para lidar com as adversidades da vida, e com a propria condição sexual.
Uma obra da qual gosto muita, que enfatiza o papel e a importância da "diversidade" na "obra de Deus" é um livro chamado "Orientação espiritual para Homossexuais"...
A primeira frase do livro, é provocadora: " A homossexualidade é um dom de Deus".
Embora o livro comece com uma discussão teológica um pouco "hard" para os menos afeitos à filosofia, eu considero o livro imperdível, fantástico, é uma grande reconciliação com a espiritualidade para gays e lésbicas.
Ah, quanto ao filme The Bubble; eu até acho que ele contém uma mensagem bonita, mas é um filme com roteiro, diálogos, fotografia muito fracos... Vale mais pela mlitância, que pelo filme.
Um grande abraço
"Hoje em dia, isto é bem discutível. Pode-se aderir parcialmente a um credo, ou mesmo, elaborar a sua própria espiritualidade, juntando elementos de religiões distintas. Mas não nos enganemos. Há redutos onde a religião é ainda a força que determina tudo na vida."
vc diz que não, depois diz q sim?
Meu Deus não está em nenhuma religião, em que pese toda a minha formação ... descobri, pelo sofrimento, que o verdadeiro Deus é AMOR em plenitude e na dimensão ÁGAPE ... o Deus das religiões [todas sem excessão] constitui-se na maior farsa e inversão de valores reais ... "e Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança" ... todavia o homem, em seu egoísmo, também criou um Deus à sua imagem e semelhança ...
bjux Rafa
;-)
ps: a propósito! o filme é belíssimo ...
Vi esse filme no Estação Botafogo quando lançou e adorei.
Singelo, sutil e, ao mesmo tempo, tão forte. A cena final é muito boa.
Bjão e saudade de vc, seu ingrato!
Antes eu não tinha nada contra essas vertentes religiosas.
Mas estou começando a pegar ódio. Porque a coisa é tão ordinária e cegante, que dar uma aula de evolução ou sexualidade para essas crianças impregnadas com esses dogmas é impossível! As crianças se recusam a aceitar os fatos, os pais tentam de todas as formas nos proibir de ensinar isso... é muita vontade de ficar no escuro!
Ainda faço um post de revolta sobre isso um dia.
Beijo Rafa!
Ótimo, mais um simpatizante de Papis... daqui a pouco ele vai ter até torcida organizada...
Durkheim tem idéias incríveis e pra isso, mas ninguém supera Bukowski #FATO
No fundo a religião ainda guia, mas velho cabe cada um ter bom senso de saber distinguir as coisas e não sair por aí no 8 ou 80.
não dá pra falar de religião com vc, que estudou tão a fundo
calar-me-ei!
Eu assisti Pecado da Carne e gostei. E vou baixar o "The Buble"... Enquanto a música, acho que anda tenho a acrescentar. Apenas perfeita!
Bjs RAfa
Faz sentido os homens criarem Deus para conseguirem ter um pouco mais de firmeza ao caminhar na terra das incertezas e, buscarem, assim, alguma segurança...
Imagino o contrário. Como seria um mundo em que as pessoas assumissem o risco de estar vivas e se comprometerem consigo mesmo e com os outros porque isto é o melhor a ser feito para si mesmo e para os outros?
Talvez num mundo assim a religião pudesse ser apenas uma experência de espiritualização da existência...
Por enquanto, me parece um abistáculo a ser superado.
Vou com Braccini: Viva o amor!
Amor ao próximo e a si mesmo.
acho que pecado da carne foi inventado pra diminuir as taxas de natalidade
Quem criou o conceito do "pecado"provavelmente era alguém bem frustrado com a vida...rs
Linda semana..abraços querido.
Acho isso de juntar elementos de religiões distintas Bullshit. Pronto, falei.
Tem água?
Pecado da carne?
Sou favor!
Aliás, sou a favor de todos os pecados!
Bjoz!
ihhhh... te habitua.. a VJ sempre consegue o que quer... hahahaha!!!!! bjozzz!
super concentrado num coment's, mas me matei rindo com a vaca..
aliás, tbm sou a favor de todos os pecados possivel.
=D
Achei esse filme lindo. Sutil, singelo e principalmente corajoso. Os atores estão incríveis!
bjão!
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