Ela tem grandes olhos negros que reluzem ao se interessar por qualquer coisa: pessoa, bicho ou livro. O único branco em toda sua harmoniosa face é este do entorno às pupilas. A pele acetinada, de um moreno das índias delata a origem de sua família, lá do outro lado do mundo. No entanto, apesar de tudo, ela é a encarnação da melhor carioquice, deste espírito que conjuga força, garra com um jeito leve e solto de agarrar a vida.
As minhas primeiras impressões foram que ali estava uma garota que não seguia modas, pensava eu que ela mesma fabricava habilmente seus penduricalhos e utensílios tanto que era a sua cara, seu jeito, uma emanação objetiva dela própria. Inclusive a garrafinha térmica de café que partilhava nas aulas, cheio do líquido escuro como suas pupilas, fumegante e quente para todos os nele interessados. Foi assim que a conheci e imediatamente senti por ela um fascínio que retrai, algo que te faz fugir para algum lugar em você mesmo para contemplar, admirar e, descoberto o segredo de ser tanto ela mesma, come-lo, devorar antropofagicamente o que brilha por toda a menina.
Nos dois semestres seguintes nos perdemos. Encontrava-a em algum corredor, ambos correndo, sem café, sem tempo, sem intimidade para dali marcar qualquer coisa. Até que neste período voltamos a estudar juntos: Economia e Política Contemporânea. E foi em função de uma prova da primeira que fui convidado junto com um grupo para uma tarde de estudos em sua casa.
Bia, este é seu nome, mora num amplo apartamento, quase vazio de móveis, o que combina com ela. Amplos espaços, grandes vãos por quais se circula fácil. O que há é uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara emoldurada pelo melhor do Rio: O Pão-de-Açúcar. Achei sinceramente que uma garota tão genuinamente carioca merecia, de verdade, uma vista desta. Ela sabe ver, pode-se colocar de frente à sua janela de forma absoluta e veraz.
Estudamos fervorosamente “elasticidade-preço cruzada da demanada”, “Teoria geral da firma” e outros conceitos econômicos representados por hieróglifos que só um Indiana Jones poderia interpretar plenamente. Levei para Bia um café, bom, caro, que inundou minha mochila de um aroma fantástico. Descobri então que, além do entorno à pupila, os dentes são também branquíssimos e o sorriso uma celebração.
A tarde foi caindo sobre a baía, o filé mignon da semana, sábado a noite, se aproximando e quando o último cara ia saindo, ela me disse pra ficar, se eu não queria mais uma cerveja. Eu fiquei e o “mais uma” se transformou na maior quantidade de cervejas armazenadas e devidamente bebidas que já vi. Seis horas e meia depois, havíamos falado sobre tudo. Eu a conhecia para além dos lindos véus com que desfila por aí e ela sabia de mim como poucos. Saímos encantados um com o outro, daquele tipo de encantamento declarado e alimentado por torpedos no dia seguinte.
Eu, da solidez intransponível da minha adoração pelo sexo masculino, pensei que, definitivamente Bia é alguém para se amar louca e decididamente. E fiquei feliz com minha sorte de encontrar alguém nestes dias áridos em que vivemos, tão de dentro pra fora. Marcamos mais cerveja no feriado, Desta vez, eu vou repor seu magnífico estoque.
P.S. Queridos, estou mega-ocupado até Segunda, por isto o sumiço deste e de outros blogs. Mas eu volto, Bjs!
7 comentários:
Adoro! AMigos nascem assim!
E, vamos beber?
Tô com ciúmes agora... hahahaha!!!! E como disse o Mauri (acima): "bora beber", fio!!!!!
E se "tás" eriçado"... melhor ainda... hahaha!!!! Hugzzzzz do conglomerado bovino!!!!
nossa...juro q enqto lia, pensei "vai rolar a descrição de uma cena de sexo selvagem"...rs...mas cheguei na solidez intransponível e ri..ufa!
Entendi o que rolou..já aconteceu isso comigo antes..de admirar tanto alguém do sexo oposto.
abração
Engraçado essas pessoas que aparecem na nossa vida do nada é conseguem exercer essa fascinação toda, não é? Hoje em dia, com tanto excesso por ai, os pequenos e simples detalhes acabam nos intrigando bem mais...
Como disse o Mauri, boas amizades surgem assim XD.
Beijos!
Will & Grace total, sem a palhaçada? Supimpa!!
"descoberto o segredo de ser tanto ela mesma"...
Me conta, em segredo também...
Rafa...nossa, fiquei emocionada com a 'homenagem'!!! Saiba que o sentimento é recíproco, e, conforme disse ontem e mais um porre aqui em casa (rs), abro minha vida para poucos, mas quando abro.... aaaaaaaaaahhhhhh, é porque gosto MESMO e faço de tudo para manter e cultivar.
super obrigada pela incrível e divertida noite de ontem! você é SEMPRE bem-vindo....
bjo do lado esquerdo
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